"Os Carvoeiros"é um documentário sobre a miséria brasileira
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quinta-feira, 02 de dezembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 02 (AE) - Meio tímido, meio envergonhado, o menino não olha diretamente para a câmera. Meio de viés, olhando para o lado, ele responde à pergunta: "O que você quer ser quando crescer?" Diz: "Carvoeiro." E acrescenta: "Para ganhar dinheiro." A inocência da infância. Se há uma coisa que ninguém ganha trabalhando como carvoeiro é dinheiro. Estréia amanhã (03) o documentário "Os Carvoeiros", de Nigel Noble, produção de José Padilha. O filme já está selecionado para o Sundance Festival do ano que vem.
Será exibido na seção chamada World Cinema. No Rio, aonde veio para ajudar a divulgar o lançamento, Noble não esconde sua alegria por estar no Sundance. "É a mais importante vitrine da produção independente no mundo." Diz que nem foi preciso inscrever "Os Carvoeiros". "O interesse foi do próprio Sundance, que praticamente nos intimou a ceder o filme para essa exibição." Logo em seguida, virá o Environment Film Festival, em Washington, menos conhecido do que o Sundance, mas não menos importante como vitrine da produção voltada à discussão sobre ecologia.
"Os Carvoeiros" começou a nascer em 1991. Naquele ano, o fotógrafo Marcos Prado colheu imagens impressionantes sobre a atividade de carvoeiros. Padilha fez a curadoria de uma exposição dessas fotos na Eco 92, o encontro mundial de ecologia realizado no Rio. Desde aquela época já falavam no projeto de um filme. Padilha esclarece que o projeto era, e é, mais amplo. Ele quer documentar populações pouco conhecidas do Brasil, quer que as pessoas contem a própria história diante da câmera como forma de descobrir o País que pouca gente vê. Depois dos carvoeiros, tem planos para documentar boiadeiros, seringueiros e por aí afora.
Não foi fácil levantar a verba da produção. Não havia muitas empresas interessadas em patrocinar um documentário sobre um segmento miserável da população. A Volkswagen terminou associando-se ao projeto atraída por um aspecto na verdade deprimente do tema: crianças trabalham na extração do carvão vegetal. A empresa tem todo um programa social contra a exploração do trabalho infantil. Com o aval da Volks, e também do Banco Pactual, da Telefônica e de Monsen, Leonardos e Cia., "Os Carveiros tomou forma e veio à luz.
Muita gente estranhou quando Padilha foi buscar um diretor americano para o projeto. Escolheu Nigel Noble, professor de direção da New York University e vencedor do Oscar de documentário por Close Harmony, em 1981. Noble também ganhou dois Emmys, o Oscar da TV, por "Stich of Time", de 1988, e Voices of Serafina", de 1985. Noble não sabia nada sobre carvoeiros, mas, como explica Padilha, sabia tudo sobre a realização de filmes. Era o que o produtor queria.
"Buscava um documentarista que desse ao filme o formato que eu imaginava: ausência de narrador, só depoimentos; emoção em vez de didatismo", conta. Padilha também queria alguém que, por sua experiência, pudesse ajudar a formar uma equipe no Brasil. Noble tinha esse perfil.
As filmagens ocorreram em março-abril do ano passado em Mato Grosso do Sul, na Amazônia e em Minas. Foram 23 dias durante os quais foram colhidas 32 horas de imagens e depoimentos, finalmente reduzidas a 70 minutos na versão para cinema.
Um filme assumidamente social. Noble destaca que foi o que o atraiu no tema - a dimensão social, sempre forte em seu trabalho. Depois, à medida que se ia familiarizando com o tema, foi descobrindo outras coisas. Descobriu que, embora pobres, os carvoeiros eram calorosos e hospitaleiros. "Abriam suas casas para a gente", diz. A dignidade na adversidade seduziu o diretor, que também foi tocado por um aspecto fundamental: ele começou documentando trabalhadores adultos, muitos idosos. Só depois surgiram as crianças. Aquilo lhe deu a dimensão trágica do tema. "A experiência dos velhos está repetindo-se com as crianças; não aprendemos nada", ele acrescenta.
Neste mês, simultaneamente à estréia do filme, sai o livro que Marcos Prado editou sobre o assunto: 192 páginas, 140 fotos de carvoeiros. O livro será vendido a R$ 120 (ou 140). As fotos, todas magníficas, são em preto-e-branco. O filme, em cores. Noble explica: "Como diretor filiado à vertente do cinema-verdade, queria ficar o mais próximo possível da realidade e a realidade dos carvoeiros é em cores; o Brasil é muito colorido." A produção abriu mão de todo lucro, cedendo os direitos do filme ao Unicef, para seus projetos sociais no Brasil.
Padilha destaca um apoio importante: o do jogador Ronaldinho, que colocou dinheiro do próprio bolso na produção, interessado em participar de um projeto social sobre a infância no País. Serviço - Os Carvoeiros. Documentário. Direção de Nigel Noble. Narração de Paulo José. Duração: 70 minutos. Distribuição: Riofilme


