O perfil controvertido do artista é traçado a partir de depoimentos de amigos, familiares e dele próprio
O perfil controvertido do artista é traçado a partir de depoimentos de amigos, familiares e dele próprio | Foto: JF Diorio/Estadão Conteúdo
Em 1971, Fagner abandonou a faculdade de arquitetura para investir na carreira artística no Rio
Em 1971, Fagner abandonou a faculdade de arquitetura para investir na carreira artística no Rio | Foto: Reprodução/Livro Raimundo Fagner – Quem me levará sou eu

Prestes a completar 70 anos de vida no próximo dia 13 de outubro, Fagner tem sua trajetória passada a limpo na biografia “Raimundo Fagner – Quem me levará sou eu”. Escrito pela jornalista Regina Echeveria, o livro publicado pela editora Agir conta em 440 páginas a história pessoal e profissional do famoso cantor e compositor cearense. O perfil controvertido do autor de “Mucuripe” e dezenas de outros clássicos do cancioneiro nacional é traçado a partir de depoimentos de amigos, familiares e do próprio artista. A publicação também reúne fotos, capas de discos e reprodução de reportagens sobre o biografado.

A descoberta do filho Bruno deu a Fagner um novo sopro de vida
A descoberta do filho Bruno deu a Fagner um novo sopro de vida | Foto: Reprodução/Livro Raimundo Fagner – Quem me levará sou eu

O livro tem início com o capítulo Revelação, que narra o episódio em que Fagner aos 56 anos e com fama de ser o solteiro mais convicto da MPB descobre que é pai de Bruno, fruto de uma paixão vivida ainda no início de carreira, quando o cantor tinha acabado de lançar seu primeiro disco, Manera Fru Fru Manera, em 1973. O que poderia se tornar uma polêmica, acabou resultando em um sopro de vigor na vida do artista que sentia-se solitário após perder os pais e três dos quatro irmãos.

Filho de um imigrante libanês, Fagner nasceu e cresceu em Fortaleza (CE). O nome de batismo teria sido dado por engano. A intenção era homenagear o compositor alemão Richard Wagner, mas o sotaque do pai confundiu o escrivão que acabou trocando o W pelo F. O contato com a música começou ainda na infância, época em que o caçula de cinco filhos ouvia as canções que tocavam no rádio com a mãe e os irmãos e as músicas árabes cantadas pelo patriarca. Aos cinco anos, foi levado até à Ceará Rádio Clube, onde ganhou um concurso em homenagem ao Dia das Mães na categoria intérprete mirim. Voltou a frequentar programas de calouros aos 15 anos e não parou mais até trocar a capital cearense por Brasília, para onde se mudou para cursar arquitetura.

Em 1971, abandonou a faculdade para tentar a carreira artística no Rio de Janeiro. Passou diversas dificuldades financeiras ao lado de Belchior, que também buscava reconhecimento na mesma área, até que passou a contar com o apoio da maior estrela da MPB na época. Ainda desconhecido, foi timidamente apresentar as canções que compunha a Elis Regina. Encantada com as composições do cearense, quando ficou sabendo que o jovem enfrentava problemas por falta de dinheiro a “Pimentinha” o convidou para morar na mansão em que vivia com o marido Ronaldo Bôscoli. Vencidas as dificuldades iniciais, nos anos seguintes Fagner assinou contrato com grandes gravadoras, gravou discos de sucesso, gravou para trilhas de novelas, passou a vender milhões de discos e teve suas composições gravadas pelos maiores astros da música brasileira.

Dois dos grandes sucessos na voz de Fagner foram endereçados primeiramente a Roberto Carlos, de acordo com o livro. Ouvindo queixas do amigo Zé Ramalho, que se mostrou triste pelo fato do "Rei" não ter gravado uma canção composta especialmente para o autor de "Detalhes", Fagner pediu para ouvir a composição e resolveu gravar "Eternas Ondas", que se tornou um grande hit. "Borbulhas de Amor", que tocou exaustivamente nas rádios também seria gravada por Roberto, porém o cearense acabou se antecipando e lançou antes dele a música composta por Juan Luís Guerra com versão traduzida pelo poeta Ferreira Gullar.

Apesar de ter uma personalidade marcada pela controvérsia, ora delineada no livro por relatos que exaltam a generosidade do cearense e ora por fatos que revelam o temperamento estourado e intolerante do artista, os episódios polêmicos vividos pelo cearense são amenizados por notas escritas pelo próprio biografado. A intromissão de Fagner que, segundo o editor do livro, fez questão de rever cada parágrafo, acrescentou detalhes e explicou melhor uma ou outra passagem, acabou deixando o livro com cara de biografia chapa-branca.

Ainda assim sobrou espaço para narrar algumas das inúmeras brigas e discussões envolvendo o cantor, que é conhecido pelo gênio forte e por não ter papas na língua. A atribulada amizade de Fagner com Belchior é lembrada no livro. A parceria que teve início no começo da carreira artística de ambos, que chegaram a dividir a mesma morada na fase de vacas magras, terminou com uma briga memorável que incluiu socos e golpes de karatê na casa da cantora Amelinha. Tudo por causa de uma jaqueta de couro que Fagner afirma ter dado para Belchior e que o músico presenteado teria oferecido a outro amigo. A publicação cita ainda uma discussão desagradável que quase pôs fim à parceria do cearense com o cantor e compositor Zeca Baleiro, com quem Fagner gravou um disco e saiu em turnê, em 2003.

Na biografia Fagner fala de sua paixão pelo futebol e lembra da inusitada parceria com Ney Matogrosso, que acabou rendendo um compacto lançado em 1975 e aclamado até hoje pela crítica especializada pela harmonia entre os timbres de características tão diferentes. E a amizade com Cazuza, que se tornou vizinho e amigo do biografado. "Cazuza sempre me procurava de tarde. Eu tocava violão e ele cantava, meio sem destino, improvisando. Gravei algumas fitas cassetes desse período", conta o autor do hit "Canteiros".

Imagem ilustrativa da imagem Os canteiros e deslizes de Fagner
| Foto: Reprodução

Serviço:

Raimundo Fagner – Quem me levará sou eu

Editora Agir

440 páginas

Valor sugerido - R$ 49,90

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