Os caminhos da boa trama
Será possível um produto hollywoodiano ser bom, apesar de Keanu Reeves ? Pois acreditem, este firme e tenso ''Os Reis da Rua'' que chega hoje ao circuitão nacional (confira a programação de cinema na página 2) tem muito boa pegada, e uma variedade de coisas a apreciar. Mas um ponto é de fato bem acima dos demais, e este é James Ellroy no comando da história. O best-seller de novelas criminais (''Dalia Negra''), autor do argumento e co-roteirista, escreveu uma surpreendente peça de bom cinema.
As direções que ele toma são invariavelmente melhores e mais espertas do que qualquer um poderia prever ou adivinhar. O andamento que se espera da narrativa nunca é aquele que você imagina que seja, e o inesperado se instala para deixar o andamento mais agradável e mais aberto à adesão. Talvez em homenagem a esta competente escritura de cinema o reincidente Reeves tenha se esforçado além dos próprios atributos. Ele está bem, não compromete e não se fala mais nisso.
A polícia de Los Angeles é corrupta, realmente corrupta, a julgar pela longa lista de filmes a enfatizar este comportamento. ''Os Reis da Noite'', no entanto, não fala de policiais corruptos atrás de ladrões e assassinos e traficantes. Fala de policiais corruptos atrás de policiais corruptos. Keanu Reeves está no centro da trama, interpretando um tira durão.
A sequência inicial coloca a platéia diretamente no mundo do personagem. Ele vive só, Acorda e imediatamente vomita - um comentário sem palavras sobre o que é a sua vida. Ele compra miniaturas de garrafas de vodka, aquelas de frigobar de hotéis, e vai liquidando uma por uma enquanto dirige. Quando confrontado com uma situação de perigo mortal, subitamente torna-se o profissional consumado. É quando ele percebe que está vivo.
Tom é a estrela de uma unidade de detetives de elite, comandada pelo capitão vivido por Forrest Whitaker, em interpretação bem mais elaborada, resultado de planejamento meticuloso aliado ao brilho da inspiração do momento. A ação de ''Os Reis da Noite'' acompanha Tom na investigação da morte de um ex-parceiro. Há suspeitas diversas, inclusive com Tom podendo estar envolvido. O espírito do velho Hitchcock assombra beneficamente a trama, embora o dedo de Ellroy deixe boa margem à imaginação do espectador.
A direção de David Ayer é sóbria, daquelas tão necessárias que apenas servem à história - vale dizer, não faz o tipo que a todo momento anuncia a presença por trás das câmeras com foguetório. Isto equivale dizer que um jovem ego qualquer teria com certeza arrastado a narrativa por mais de duas horas, ao passo que aqui tudo se condensa em eficientes 107 minutos.(C.E.L.J.)





