Os cães, o melhor da festa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br>Especial para Folha2 
Ex-sócio de Spielberg e ex-produtor-estrela de Hollywood, Frank Marshall se deu mal quando mostrou sua faceta como diretor, com filmes que oscilaram entre o penosamente toleráveis Aracnofobia e Vivos!, e o francamente execrável Congo, ainda que sem querer muito divertido. Este Resgate Abaixo de Zero que estréia hoje na cidade (confira a programação de cinema na página 2) representa um up grade na carreira do cineasta, embora ele não consiga evitar reincidências, em especial quanto ao manejo dos atores.
Nada a ver com o elenco canino que recheia o filme de credibilidade e genuína emoção, mesmo quando a montagem é francamente manipuladora. O problema do elenco é mesmo com os humanos. Below Zero segue as aventuras de uma matilha de cães de trenó (Huskies Siberianos e Malamutes do Alaska) abandonados por seu treinador na Antártida porque faltou espaço para eles no helicóptero que vai resgatar pesquisadores de uma estação científica. Jerry, o treinador (Paul Walker), promete voltar logo por eles, mas uma dessas tempestades ferozes, combinada com o inclemente inverno austral, impede o resgate. Assim, os cães devem sobreviver no frio terrível utilizando apenas seus melhores instintos, dispensando qualquer outra ajuda. Só que o filme não assimilou esta lição, de deixar tudo correr por conta só da bicharada, e torna-se vulnerável quando os bípedes estão por perto.
É provável que Resgate Abaixo de Zero seja mais otimista do que a triste história real que serviu como inspiração, mas ainda assim Marshall não hesita em colocar em perigo seus protagonistas caninos, imprimindo ao filme um tom mais realista do que as típicas histórias de animais produzidas pelos estúdios Disney em outras décadas. De qualquer forma, os cães não falam e nem se comportam à maneira dos humanos (talvez com uma breve exceção). Os melhores momentos da narrativa surgem quando uma câmera silenciosa segue as aventuras dos cães, ilustrando seu extraordinário esforço físico e seus aguçados instintos de sobrevivência. A fotografia é de tirar o fôlego, e a trilha musical de Mark Isham (Os Lobos Não Choram) acentua a trama.
E a metade humana resulta com desempenho bem inferior, aborrecido e à beira da mediocridade, a começar pela pouca veracidade que o ator Paul Walker empresta a seu personagem, repetindo seus diálogos sem convicção. Somente Bruce Greewood como um obcecado cientista mostra algum traço de personalidade. Mas também com desempenho bem abaixo dos assombrosos cachorros, que são sempre emocionantes e hipnóticos.
É conveniente anotar que Resgate Abaixo de Zero não é uma típica historinha de travessos animalzinhos do titio Disney, mas um olhar o mais realista possível no comportamento de cães em situação extremada e em sua luta (nem sempre com êxito) pela sobrevivência. Talvez por isso não seja um filme apropriado a crianças de todas as idades.


