Os 'cadernos' estão na rede
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de junho de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina 
Há poucas unanimidades no mundo do cinema, mas uma já é antiga e ninguém ousa discordar: a revista francesa Cahiers du Cinéma (Cadernos de Cinema) é a que melhor analisa a sétima arte há cinco décadas, desde que o brilho da mente de André Bazin a fez surgir em abril de 1951. Nesses 50 anos, a revista passou por diversas mudanças na linha editorial - as fases rebelde, comunista, semiótica e pós-moderna.
Mas só foi recentemente que ocorreu uma mudança fundamental - a Cahiers passou a ser acessível em qualquer canto do mundo. O site www.cahiersducinema.com está na web há alguns meses e tem uma das resoluções gráficas mais modernas da internet. Criado pela Distance Ultra Courte, e mantido pela sociedade anônima Editions de lEtoile, a homepage resolve um anseio que há muito incomodava os fãs da Cahiers, a de não encontrá-la nas bancas. Devido às dificuldades de distribuição, somente algumas capitais e outras afortunadas cidades recebiam a edição de um ou dois meses atrás.
A versão eletrônica mantém o velho estilo que consagrou a Cahiers - uma publicação crítica, rigorosa e que não faz concessões aos leitores médios, acostumados a comentários superficiais e ligeiros. Dirigida por Franck Nouchi, e sob a orientação do redator chefe Thierry Lounas, o site traz as principais atrações das edições mais recentes, não todas.
Na última atualização, realizada em 13 de junho, é possível ler três ensaios especiais sobre o cinema selvagem de Raoul Walsh: Eloge du Champion de Emmanuel Burdeau (secretário-chefe da revista) sobre o filme Gentlemen Jim; Fast-Food de Samson Sylvain, que versa sobre Sabotage à Berlin; e Les Moments de Walsh, uma síntese da carreira do cineasta elaborada por Cédric Anger. Todos os escritos são amparados com belas fotos em preto-e-branco e animações que suavizam a leitura.
Paul Verhoeven, cineasta que está completando 20 anos de carreira, concede uma entrevista que pode ser vista e ouvida para quem tem os programas de streaming - que permitem baixar a imagem e o som do bate-papo. Ele fala de seus principais filmes, como Instinto Selvagem (1992) e O Homem Sem Sombra (2000).
Antenada com o que é de mais moderno na linguagem cinematográfica, a Cahiers inclui em sua página três estudos detalhados sobre o filme In the Mood For Love (Amor à Flor da Pele) de Wong Kar-Wai, talvez o cineasta mais ousado de nossos dias. Após duas visões sobre o amor contemporâneo, Amores Expressos e Happy Togheter, Kar-Wai completa uma trilogia embalada por um romantismo moderno, ainda a se consolidar.
Outro homenageado da homepage é o cineasta alemão Ernst Lubitsch, o mestre do humor sublime. O autor de O Diabo Disse Não, Ninotchka e A Loja da Esquina tem 20 filmes analisados pela equipe da Cahiers, esbaldando fotos do diretor. Discussões não menos importantes estão em um link específico sobre a rede mundial de computadores - Internet: parler, écouter, filmer analisa em três ensaios quais as consequências da mundialização pela web, a democratização do mercado cinematográfico após o surgimento dos e-movies (filmes para internet), e a viabilidade do Napster - programa que cria um banco de dados mundial de arquivos musicais.
Há outros links interessantes, como a agenda de estréias em Paris, a de lançamentos em DVD, a programação da TV a cabo, e a cronique du web - este último um escrito mais suave, que se contrapõe à leitura dos demais textos. Anything goes, por sua vez, reúne ensaios sobre a obra de Orson Welles, Sam Peckinpah e as ligações de Marguerite Duras com o cinema.
A Cahiers, que agora está bem mais próxima, continua servindo de parâmetro sobre o que de há mais novo no cinema mundial. E como o assunto é cinema, a homepage prima pela qualidade das imagens. Um site para ler e contemplar!
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