Há poucas unanimidades no mundo do cinema, mas uma já é antiga e ninguém ousa discordar: a revista francesa ‘‘Cahiers du Cinéma’’ (Cadernos de Cinema) é a que melhor analisa a sétima arte há cinco décadas, desde que o brilho da mente de André Bazin a fez surgir em abril de 1951. Nesses 50 anos, a revista passou por diversas mudanças na linha editorial - as fases rebelde, comunista, semiótica e pós-moderna.
Mas só foi recentemente que ocorreu uma mudança fundamental - a ‘‘Cahiers’’ passou a ser acessível em qualquer canto do mundo. O site www.cahiersducinema.com está na web há alguns meses e tem uma das resoluções gráficas mais modernas da internet. Criado pela Distance Ultra Courte, e mantido pela sociedade anônima ‘‘Editions de l’Etoile’’, a homepage resolve um anseio que há muito incomodava os fãs da ‘‘Cahiers’’, a de não encontrá-la nas bancas. Devido às dificuldades de distribuição, somente algumas capitais e outras afortunadas cidades recebiam a edição de um ou dois meses atrás.
A versão eletrônica mantém o velho estilo que consagrou a ‘‘Cahiers’’ - uma publicação crítica, rigorosa e que não faz concessões aos leitores médios, acostumados a comentários superficiais e ligeiros. Dirigida por Franck Nouchi, e sob a orientação do redator chefe Thierry Lounas, o site traz as principais atrações das edições mais recentes, não todas.
Na última atualização, realizada em 13 de junho, é possível ler três ensaios especiais sobre o cinema selvagem de Raoul Walsh: ‘‘Eloge du Champion’’ de Emmanuel Burdeau (secretário-chefe da revista) sobre o filme ‘‘Gentlemen Jim’’; ‘‘Fast-Food’’ de Samson Sylvain, que versa sobre ‘‘Sabotage à Berlin’’; e ‘‘Les Moments de Walsh’’, uma síntese da carreira do cineasta elaborada por Cédric Anger. Todos os escritos são amparados com belas fotos em preto-e-branco e animações que suavizam a leitura.
Paul Verhoeven, cineasta que está completando 20 anos de carreira, concede uma entrevista que pode ser vista e ouvida para quem tem os programas de streaming - que permitem ‘‘baixar’’ a imagem e o som do bate-papo. Ele fala de seus principais filmes, como ‘‘Instinto Selvagem’’ (1992) e ‘‘O Homem Sem Sombra’’ (2000).
Antenada com o que é de mais moderno na linguagem cinematográfica, a ‘‘Cahiers’’ inclui em sua página três estudos detalhados sobre o filme ‘‘In the Mood For Love’’ (Amor à Flor da Pele) de Wong Kar-Wai, talvez o cineasta mais ousado de nossos dias. Após duas visões sobre o amor contemporâneo, ‘‘Amores Expressos’’ e ‘‘Happy Togheter’’, Kar-Wai completa uma trilogia embalada por um romantismo moderno, ainda a se consolidar.
Outro homenageado da homepage é o cineasta alemão Ernst Lubitsch, o mestre do humor sublime. O autor de ‘‘O Diabo Disse Não’’, ‘‘Ninotchka’’ e ‘‘A Loja da Esquina’’ tem 20 filmes analisados pela equipe da ‘‘Cahiers’’, esbaldando fotos do diretor. Discussões não menos importantes estão em um link específico sobre a rede mundial de computadores - ‘‘Internet: parler, écouter, filmer’’ analisa em três ensaios quais as consequências da mundialização pela web, a democratização do mercado cinematográfico após o surgimento dos e-movies (filmes para internet), e a viabilidade do Napster - programa que cria um banco de dados mundial de arquivos musicais.
Há outros links interessantes, como a agenda de estréias em Paris, a de lançamentos em DVD, a programação da TV a cabo, e a ‘‘cronique du web’’ - este último um escrito mais suave, que se contrapõe à leitura dos demais textos. ‘‘Anything goes’’, por sua vez, reúne ensaios sobre a obra de Orson Welles, Sam Peckinpah e as ligações de Marguerite Duras com o cinema.
A ‘‘Cahiers’’, que agora está bem mais próxima, continua servindo de parâmetro sobre o que de há mais novo no cinema mundial. E como o assunto é cinema, a homepage prima pela qualidade das imagens. Um site para ler e contemplar!
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