Um grupo de 30 técnicos da Cinemateca Brasileira, de São Paulo, e da Cinemateca do MAM, do Rio, está reunido no antigo matadouro da Vila Mariana tentando salvar desesperadamente os episódios em acetato da antiga série ''O Vigilante Rodoviário'' e da produção ''Terra Violenta'', de 1948, primeiro filme baseado em Jorge Amado, entre outros filmes. Ao mesmo tempo, também faz o levantamento de todo o patrimônio audiovisual brasileiro, trabalho que deverá estar concluído em cinco meses.
Um levantamento preliminar feito por esses restauradores mostra que, de toda a produção cinematográfica do Brasil nos primeiros 20 anos do século 20, salvou-se apenas 1%. Ou seja: sobraram somente 16 filmes dos 1.537 cadastrados.
A situação vai melhorando conforme o século avança, mas não muito. Entre 1919 e 1929, o porcentual de filmes salvos é de 7% - são 117 filmes salvos, dos 1.625 filmes cadastrados. O primeiro filme brasileiro - dos que sobraram -, ''Reminiscências'', de Aristides Junqueira (1909), foi restaurado. Mas toda a produção do século 19 (foram feitos 70 filmes no País na época) perdeu-se.
''O nosso cinema só não morreu definitivamente no governo Collor porque alguns cineastas abnegados venderam ou empenharam até seu patrimônio pessoal para continuar a fazer cinema'', dizem Myrna e Carlos Brandão, que comandam o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), no Rio.
Patrocinado pela BR Distribuidora e pelo Ministério da Cultura, o censo cinematográfico em curso busca também recuperar pelo País o que existe de filme brasileiro disperso, para fechar o balanço - até agora catastrófico. Estão sendo investidos cerca de R$ 78 mil na empreitada.
A Cinemateca do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, que possui 25 mil títulos de filmes em seu acervo (mas não tem um depósito climatizado, o que significa que não tem condições de armazenar o material), uniu-se à Cinemateca Brasileira na tarefa de inventariar o cinema brasileiro.
A sala climatizada da Cinemateca Brasileira foi inaugurada em abril e custou algo em torno de R$ 3 milhões - menos de 30% do que custou um desses abacaxis cinematográficos recentes, por exemplo. Sua instalação garante uma sobrevida de 300 anos a cerca de 100 mil rolos de filmes, equivalentes a 20 mil títulos, que pertencem ao acervo da instituição.
Em condição perfeita, os filmes coloridos devem ser conservados em ambientes com temperatura abaixo de zero grau e as produções em preto-e-branco, a 18 graus, com no máximo 45% de umidade relativa do ar. Quando isso não ocorre, o filme inicia um rápido processo de degradação: surgem manchas nos quadros, fungos instalam-se nas imagens e o filme começa a encolher, impossibilitando sua exibição.
''A deterioração é um processo irreversível e o material tem de ser duplicado antes que se perca'', diz o diretor-interino da Cinemateca Brasileira, Carlos Roberto Rodrigues de Souza. ''A quantidade de filmes do Cinema Novo que tivemos de duplicar para salvar é impressionante'', conta Souza.
Segundo ele, que coordena os trabalhos em São Paulo, a preservação da obra cinematográfica é uma preocupação recente do cinema e começa apenas nos anos 80. Há exceções, como foi o caso de Humberto Mauro, mas no geral os diretores não primavam pelo cuidado com seu próprio patrimônio fílmico.
O rastreamento dos filmes poderá trazer surpresas e ajudar a minorar as estatísticas da tragédia. ''Obras inesquecíveis do período das chanchadas estão desaparecidas, mas a gente sempre diz que 'não estão perdidas; ainda não foram achadas''', diz Carlos Brandão. Exemplo recente, continua, foi o do filme ''Aviso aos Navegantes'', clássico de 1951 dirigido por Watson Macedo. O filme foi redescoberto (em diversos pedaços de cópias de 35 e 16 milímetros) e relançado nos Festival do Rio BR 2000 pelo CPCB, após restauração.
A Cinemateca Brasileira, a cada dois anos, costuma fazer uma revisão do material armazenado em suas dependências. Até abril, era uma tarefa inglória, porque não havia como garantir que o material pudesse ser salvo - tratava-se apenas de chegar a conclusões óbvias. Mas agora, com o depósito climatizado, a situação mudou.
Os técnicos estão fazendo uma verificação sistemática de todos os rolos de filmes das duas cinematecas, checando documentários, cine-jornais e pedaços de longas-metragens para ver o que é possível salvar. ''O acetato, quando estraga, mela, tem uma desplastificação'', explica Carlos Roberto Rodrigues de Souza.
Se a conservação hoje é garantida pelas novas instalações climatizadas da Cinemateca, o grande problema enfrentado pelos cineastas, no entanto, é o financiamento para a restauração das obras ameaçadas. ''Eu ainda não consegui apoio de nenhum empresário'', conta Cacá Diegues, que inscreveu o projeto na Lei Rouanet. ''Não sei exatamente o custo do restauro, mas certamente é infinitamente menor que o valor cultural dos artistas que participaram desses filmes.''
Melhor sorte teve Nelson Pereira dos Santos que, há alguns meses, foi informado que a BR Distribuidora vai financiar a restauração de 19 filmes (17 longas e dois médias), até o fim do ano que vem. O projeto, orçado em R$ 1,2 milhão, vai privilegiar inicialmente o filme ''Vidas Secas'', cuja recuperação já havia sido começada pelo Laborcine. ''Os filmes estão em condições diversas de conservação e vamos dividi-los em cinco grupos, de acordo com a urgência de recuperá-los'', comenta o cineasta. (Colaboraram Ubiratan Brasil e Beatriz Coelho Silva, da Sucursal Rio)

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