São Paulo, 12 (AE) - Uma boa representação de filmes nacionais inéditos enriquece a programação da 23ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo: "O Primeiro Dia", de Walter Salles e Daniela Thomas, "Oriundi", de Ricardo Bravo, "Os Carvoeiros", de Niegel Nobel, "Sobras em Obras", de Michel Favre, "São Jerônimo", de Julio Bressane, "O Dia da Caça", de Alberto Graça, "Um Certo Dorival Caymmi", de Aluísio Didier, "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes, e "Cine Mambembe - o Cinema Descobre o Brasil", de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi.
Com "O Primeiro Dia", reúne-se de novo a dupla Daniela Thomas-Walter Salles, autora do ótimo "Terra Estrangeira". No intervalo, Salles fez o trabalho-solo "Central do Brasil", o mais bem-sucedido longa-metragem nacional das últimas décadas. Nesta nova parceria, percebe-se que cada um dos cineastas participantes evoluiu e se depurou, técnica e esteticamente. O resultado é uma dessas obras sigulares, que nem parecem ter sido feitas a quatro mãos, tamanha a coesão do todo e o entrosamento das partes.
No entanto, tudo a princípio parecia conduzir para um resultado mais modesto. Daniela e Salles fizeram seu filme para uma série da TV francesa Arte, "2000 Vu par... Histórias que deveriam, obrigatoriamente localizar-se na passagem do ano, entre 1999 e 2000". Em "O Primeiro Dia", tudo conflui para um desses encontros díspares da cidade grande. Fernanda Torres faz a mulher abandonada que resolve suicidar-se no réveillon. Luiz Carlos Vasconcellos é o bandidão, saído da cadeia, que se esconde no alto do edifício. Lá, sob a luz dos fogos de artifício de Copacabana, essas vidas tão diferentes se cruzam por um momento e uma noite. O tom da narrativa é seco, despojado
frontal, sem nenhum maneirismo. A história bate no espectador como um soco no estômago. Não é preciso ser masoquista para gostar dele. A dor e a revelação também fazem parte da fruição estética. Menos bem construído, mas ainda assim com alguns trunfos a seu favor, Oriundi apresenta o grande cartão de visita que é a presença do veterano Anthony Quinn no elenco. Ele faz o imigrante italiano, que chegou ao Brasil, fez fortuna, mas perdeu a mulher num acidente de avião. Velho, muito velho, vê chegar a pesquisadora interpretada por Letícia Spiller, clone da mulher amada. O melhor do filme de Ricardo Bravo é a dedicação com que Quinn, esse grande ator, se entrega ao papel. É muito interessante ver quando contracena com Paulo Autran, este no papel de médico. Um dueto muito bem afinado. Pena que, nas outras sequências, esses momentos de inspiração não sejam repetidos. E que o roteiro, em si, não consiga sustentar o interesse pelo trabalho de rememoração do velho Quinn, em busca de uma amada e de um tempo que já se foram.
Inédito na cidade - "São Jerônimo" já estreou no Rio de Janeiro, representou o Brasil em uma paralela do Festival de Veneza, e continua inédito em São Paulo. Trata-se de um versão muito pessoal da vida do santo responsável pela tradução da Bíblia e tido, pelo cineasta, como um unificador cultural em seu tempo.
"O Dia da Caça", de Alberto Graça, é a história de um rapaz que abandonou o tráfico de drogas, mas vê-se forçado a voltar ao métier. Pressionado, ele precisa buscar 30 quilos de cocaína na fronteira com a Colômbia. Na volta, envolve-se com uma femme fatale que o convence a embarcar num plano de vingança meio suicida. Graça é autor do longa Memórias do Medo, que foi apresentado na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.
Com "No Coração dos Deuses", Geraldo Moraes busca atingir o público infanto-juvenil, um tanto esquecido pelo cinema nacional. No roteiro, uma viagem no tempo dos bandeirantes, em busca de um tesouro perdido. Na tela, uma produção caprichada, com o sempre competente Antonio Fagundes no elenco. Os documentários estão presentes em bom número. A começar pelo média Cine Mambembe, do casal Laís Bodansky-Luiz Bolognesi. O filme é um relato do belo trabalho da dupla, que saiu pelo País com um projetor e alguns filmes, para mostrar cinema a quem nunca o tinha visto.
"Um Certo Dorival Caymmi", de Aluisio Didier, é um mergulho na vida do grande compositor baiano. Didier conduz ao espectador não apenas à biografia de Caymmi, mas busca desvendar alguma coisa do seu processo de criador.
"Os Carvoeiros", de Nigel Noble, põe o espectador em contato com a vida dos trabalhadores em carvão vegetal no interior do Brasil. Filma sem roteiro prévio, no estilo consagrado pelo chamado "cinema-verdade", no qual os artifícios de montagem são expurgados. O resultado do enfoque usado é um retrato das famílias pobres do interior brasileiro, nos Estados de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Pará. Noble é um diretor inglês, de 56 anos, vencedor do Oscar de melhor documentário com Close Harmony, em 1981. "O perfil de um fotógrafo - Sobras em Obras", de Michael Favre
descreve o processo criativo de Geraldo de Barros, fotógrafo experimental brasileiro, morto no ano passado. Barros foi também um dos primeiros artistas concretos, tido como responsável pela inserção da arte concreta e da pop art no tecido social da sua época. A direção de fotografia do filme é da autoria de Mário Carneiro, fotógrafo maior dos tempos do Cinema Novo. Favre é nascido em Genebra, Suíça, e realiza curtas e vídeos experimentais desde 1984. Em 1993, iniciou sua colaboração com Geraldo de Barros. Com a morte do mestre, ele presta sua homenagem por meio desse documentário de exatos 60 minutos.

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