A relação entre as sociedades indígenas e os colonizadores não conta apenas com os brancos colonizando os índios. O inverso também ocorre. Os índios pacificam os brancos. Nas três últimas décadas, estudos realizados no norte-amazônico demonstram como as sociedades indígenas transformam e reprocessam as situações de contato com os brancos. O livro ''Pacificando o Branco Cosmologias do contato Norte-Amazônico'', lançado pela Imprensa Oficial de São Paulo, reúne o trabalho de um grupo de antropólogos que trabalham com culturas indígenas do norte da amazônia. Eles explicam através de artigos como 16 grupos da região interpretam os brancos.
A proposta do livro é mostrar a forma pela qual os brancos são compreendidos. De forma fecunda e diversa, os autores analisam cosmologias de contato e a maneira pela qual essas sociedades se apropriam da história e do mundo contemporâneo.
Segundo Bruce Albert, um dos organizadores da obra, a coletânea pretende abrir o foco de observação etnográfica à diversidade de expressões (palavras, narrativas e discursos) e dimensões sociais (ritos, trocas e conflitos) pelos quais essas sociedades constróem sua articulação com a fronteira cultural e com a atuação de seus protagonistas.
A pesquisa foi feita por antropólogos brasileiros, franceses, norte-americanos e ingleses e engloba 16 grupos étnicos da região (exceto os Arara), incluindo os países limítrofes Guiana Francesa e Venezuela. Todos os grupos têm experiências interétnicas diversas. Alguns, como os Waimiri-Atroari e Arara, fizeram contato em décadas recentes; outros (Baniwa e Makuxi) tiveram seus antepassados escravizados no século XVIII.
''Pacificando o branco'' está dividido em quatro partes. A primeira, ''Trocas, palavras e doenças'' analisa as primeiras experiências de introdução de manufaturados, de confrontos linguísticos e de contaminação epidemiológica; a segunda parte, ''Alteridades e etnicidades'', tem como ponto de partida a ''crise do reconhecimento da existência do outro (alteridade)'' desencadeada nos grupos indígenas com o advento do branco; a terceira, ''Ritos e resistência'' se dedica à construção social; e a quarta, ''Cosmologias e histórias'' registra formas de registro do contato por meio de narrativas, cruzando relatos do encontro colonial com teorias simbólicas da alteridade e com modelos de atuação interétnica.
Catherine Howard, articulistas do capítulo ''A domesticação das mercadorias'', argumenta que os ''povos indígenas podem até dar a impressão de imitar a cultura dominante ao adotar as roupas dos brancos, querer seus bens, reverenciar seus deuses ou empregar sua retórica para criticá-los, mas a resistência é sempre uma questão híbrida e contraditória''.
Se os colonizadores achavam exóticos os índios logo que aportaram no Brasil, a reciprocidade também é válida. O grupo indígena Waiwai (Guiana Inglesa e Brasil) se questionava quando se deparou com os brancos: ''aqueles seres estranhos e algo grosseiros vindos de longe seriam realmente seres humanos?''
Serviço:
''Pacificando o Branco - cosmologias do contato no norte-amazônico'', organizado por Bruce Albert e Alcida Rita Ramos; co-edição Imprensa Oficial/Editora Unesp e Institut de Recherche pour le développement (IRD), 538 páginas, R$ 110,00. O livro pode ser adquirido na livraria virtual da Imprensa Oficial (www.imprensaoficial.com.br) ou pelo telefone 0800-123401

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