Os 'bons costumes' na ótica de Nelson Rodrigues e o grupo londrinense que levou sua obra para outros países
Em 2020, completam-se 40 anos da morte do dramaturgo que era um conservador na vida pessoal, mas criticou com mordacidade os valores da sociedade tradicional em sua obra que continua atual
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de agosto de 2020
Em 2020, completam-se 40 anos da morte do dramaturgo que era um conservador na vida pessoal, mas criticou com mordacidade os valores da sociedade tradicional em sua obra que continua atual
Marcos Roman - Grupo Folha 
Uma pastora evangélica acusada de encomendar a morte do marido, que já havia sido um de seus filhos adotivos e também esposo da filha biológica dela. Um grupo de extremistas que protesta contra o aborto realizado por uma menina de 10 anos e que chama de assassina a criança que engravidou do tio após ser estuprada por mais de quatro anos. Embora façam parte da dura realidade do Brasil contemporâneo, esses e outros fatos expostos diariamente pela mídia parecem ter saído dos polêmicos e irônicos textos escritos por Nelson Rodrigues décadas atrás. Embora tenha saído de cena há 40 anos , o cronista, escritor e dramaturgo que se especializou em mostrar as mazelas, os tabus e as hipocrisias da classe média brasileira deixou uma obra que continua provocativa e atual.

Nascido em Recife, em 1912, Nelson Rodrigues mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda na infância. Aos 13 anos, começou a trabalhar como repórter de polícia e a cobrir casos de crimes passionais e outros delitos que aconteciam na capital fluminense. A experiência em retratar as tragédias humanas foi usada por ele em crônicas, romances e textos teatrais que escreveria posteriormente.
A primeira peça assinada pelo escritor foi “Mulher sem pecado”, lançada em 1941. Na sequência, escreveu um de seus maiores sucessos “Vestido de noiva”, em 1943. O texto é considerado um marco na história da dramaturgia nacional por dar início ao processo de modernização do teatro brasileiro. Na década de 1950, o dramaturgo passou a escrever crônicas de “A vida como ela é” para o jornal A Última Hora. Nos anos 1960, publicou crônicas esportivas e formou a primeira mesa-redonda sobre futebol da televisão brasileira na então recém-fundada Rede Globo.
Acusado de escrever textos considerados obscenos e imorais para a época, Nelson Rodrigues era criticado por liberais, que o consideram muito conservador, e também pelos conversadores - que o achavam liberal demais. Em meio a diversas polêmicas, produziu obras de grande repercussão, divididas entre nove romances, sete livros de crônicas, 17 peças teatrais e milhares de artigos em jornais. Em quase todos os textos o autor falava de traições, abusos e morte, uma das suas maiores obsessões. O escritor que morreu no dia 21 de dezembro de 1980 por problemas cardíacos e respiratórios contou em entrevistas que na infância costumava fugir da escola para assistir a velórios.
COMPARADO A SHAKESPEARE
Um dos maiores estudiosos de Nelson Rodrigues e responsável pela recuperação e readequação da obra do escritor, o crítico teatral Sábato Magaldi (1927-2016) dividia a obra rodriguiana em três categorias: peças míticas, psicológicas e tragédias cariocas. Esta última categoria rendeu ao escritor alguns de seus trabalhos mais populares, como "Boca de Ouro”, “O Beijo no Asfalto” e “Toda Nudez Será Castigada”. Para Magaldi, as peças do escritor brasileiro deveriam ser comparadas ao teatro de Shakespeare.
GRUPO LONDRINENSE GANHOU FAMA COM DRAMA DO AUTOR

Peça escrita por Nelson Rodrigues, “Toda Nudez Será Castigada” deu visibilidade internacional ao Grupo Delta, de Londrina. “Fizemos um sucesso enorme com essa montagem. Ficamos em cartaz durante três anos, viajamos pelo Brasil inteiro, ganhamos dezenas de prêmios e fomos convidados para apresentá-la até em Nova Iorque”, lembra o ator Donizete Buganza sobre o espetáculo que ficou em cartaz entre 1984 e 1987. “Além de nos apresentar em todo o Brasil e em vários países da Europa, ficamos em cartaz durante um mês no Teatro Zaqueu de Mello, com casa cheia todas as noite e filas que dobravam o quarteirão, chegando próximo à Concha Acústica”, enfatiza o artista que deu vida a Herculano, personagem principal da peça.
Atriz e coreógrafa da montagem, Ceres Vittori credita o sucesso da peça à genialidade do diretor José Antonio Teodoro e ao texto de Nelson Rodrigues. “O Teodoro era um cinéfilo e apaixonado pelos musicais da Broadway que trouxe várias dessas influências para montagem que era muito rica, criativa e esteticamente revolucionária. Todas as cenas eram muito bem pensadas e traziam elementos inovadores. Junto disso tinha o texto do Nelson Rodrigues, que dissecava e expunha as feridas e a hipocrisia da classe média. O texto era tão forte que a gente tinha que levar as falas para a Polícia Federal autorizar as cenas. Acho que se fosse hoje, com o retrocesso que estamos vivendo, haveria pessoas na porta do teatro tentando impedir as apresentações”, afirma a artista londrinense que por seu papel de Geni na montagem ganhou o prêmio de Melhor Atriz Revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA).

“Realizamos mais de 300 apresentações da peça, que foi uma escola para todos que participaram da montagem, não apenas os atores, mas também os técnicos e outros colaboradores. Foi uma honra poder representar a cultura de Londrina para o público do México, São Francisco, Portugal e Espanha, país onde nos apresentamos sempre com muito sucesso”, resume o ator Adriano Garib, que no espetáculo atuava como o vilão Patrício.
Anos depois de ter ganhado vários prêmios como ator na montagem do Grupo Delta, Garib teve a experiência de dirigir duas peças escritas por Nelson Rodrigues. “Fui professor da CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), no Rio de Janeiro, entre os anos de 1997 a 2011, período em que dirigi “Sete gatinhos” e “Boca de Ouro”. Ainda não surgiu um dramaturgo tão canônico como o Nelson Rodrigues. Ele trabalhava os medos e desejos mais elementares da alma humana. Acho que a obra dele deveria ser obrigatória no currículo de as escolas de teatro, assim como acontece com Shakespeare e Molière”, enfatiza o ator.
FRASES DO DRAMATURGO
Confira algumas frases de Nelson Rodrigues que marcam sua trajetória
“Tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”
“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”
“Acho a liberdade mais importante que o pão”
“No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”
"As grandes convivências estão a um milímetro do tédio”


