Narciso podia achar feio o que não era espelho. Mas ele não deixou que outros julgassem se estava certo ou não, já que do mito grego não ficou nenhum retrato.
Um livro recém-publicado na Europa faz um dos mais completos apanhados sobre aqueles que não compartilharam do segredo de Narciso. Lançado pela editora inglesa Phaidon, ‘‘500 Self-Portraits’’ (Phaidon -importado-, R$ 65 a R$ 78) reúne cinco centenas de pinturas, fotografias ou esculturas que artistas dos últimos 4.000 anos deixaram de seus próprios rostos.
Mais do que um compêndio de estética facial, o volume organizado pelo ensaísta Julian Bell apresenta um detalhado catálogo de exames de consciências.
Como artistas tão distintos como o egípcio Ni-Ankh-Ptah, de 2.350 a.C., ou o jovem escultor inglês Ron Mueck lidaram com a representação dos limites corporais de suas existências? Os resultados são os mais diversos. Do olhar desconfiado que o artista gráfico e pintor alemão Albrecht Durer (1471-1528), talvez o primeiro grande auto-retratista da história, colocava em seu rosto até a melancolia da face sozinha e mutilada de Van Gogh.
A tônica do livro está nos gigantes, como o grande pintor de si mesmo Rembrandt van Rijn (1606-1669), de quem estão reproduzidos dez auto-retratos. Mas em meio a Michelangelos, Caravaggios, Goyas, Manets, Matisses e Picassos também há espaço para pintores das margens dos livros de história, como o austríaco Johannes Gumpp (1626-1646), que se retrata olhando no espelho e pintando.
Mais do que um ‘‘quem é quem’’, do que uma revista ‘‘Caras’’ do universo artístico, no entanto, o livro é uma coletânea das diversas sensibilidades em tratar de si mesmo.
E isso se estende também aos fotógrafos. O volume mostra desde a solidão de Alfred Stieglitz (1864-1946), imerso na escuridão do seu estúdio, até imagens difíceis, como a da fotógrafa Nan Goldin, 47, com o olho esquerdo coberto por um hematoma.
Difícil mesmo é não gostar de nada. ‘‘500 Self-Portraits’’ vem equipado até mesmo para agradar Narciso. A capa do volume, prateada, funciona como um 501º retrato e reflete o rosto do leitor.

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