Santa Cecília, a padroeira dos músicos e dos poetas, há de entender. Nem todos que seguiram a carreira de músico ou poeta, sabem que 22 de novembro é seu dia. Paciência. Mas isso não representa descaso - os músicos entrevistados pela Folha 2 demonstraram um carinho especial pela santa, ao saber que era ela sua protetora.
‘‘Sou desconexo com essas coisas de padroeira’’, desculpou-se o baterista Jefferson Sabbag, da banda Tocaia. ‘‘Agora que sei da nossa protetora, melhor ainda. Assim a gente não fica tão desesperado’’. Algum pedido a ela? ‘‘Muitos’’, rebate. Evitando a longa lista, fala do primeiro:
- Que a nossa santinha dê ouvidos às grandes massas, para que saibam discernir a música boa da música péssima. Todo mundo está ouvindo muita coisa ruim. Seria uma grande ajuda para nós se as pessoas soubessem separar o bom do mau, e não ficassem somente nessa coisa de mídia.
Uma interessante coincidência é que nos primeiros minutos de domingo, a banda estará lançando seu CD no Bar do Hermes. ‘‘Vai nascer abençoado. Tomara que a santa olhe pela gente e pela carreira do disco’’.
A pianista russa Olga Kiun, há alguns anos morando em Curitiba, responsabilizou a nacionalidade para explicar o desconhecimento. ‘‘Como não sou brasileira, tenho pouco contato com padroeiras’’, discorreu. O lado divinal, porém, é universal. ‘‘Todas as profissões têm um anjo-da-guarda. São eles que nos protegem, nos livram do mal’’.
‘‘Bom saber da Santa Cecília, porque os músicos precisam mesmo de uma. Está muito difícil de conviver somente com a realidade; temos que acreditar em algo mais elevado. Tomara que ela nos apoie, nos dê forças para superarmos as dificuldades’’.
Olga Kiun reclama que o brasileiro só reconhece seus artistas depois que estes conquistam o sucesso lá fora. Se não houver reconhecimento no exterior, aqui também não há. ‘‘Espero que a santa não vire as costas para nós, e ajude os músicos a permanecerem no Brasil, com o devido reconhecimento’’, frisou.
O violonista Álvaro Ramos, um dos sócios do estúdio Gramophone, nasceu no dia de Santa Cecília. ‘‘Ganhei até medalhinha, que uso de vez em quando’’, segredou. Usando ou não medalhinha, Ramos é daqueles que não entram nessa história de devoção. ‘‘Não sou devoto porque minha geração é outra, não tem essa tradição’’. O instrumentista é o típico ‘‘católico não praticante’’.
Se a padroeira puder ouvi-lo, faz um ‘‘pedido geral’’: que as coisas melhorem para todos. ‘‘As pessoas estão com medo de dar o primeiro passo; com receio de investirem. O raciocínio atual é o da timidez, da insegurança. Temos que ousar’’, disse.
Grace, do Grupo Fato, acha a santa ‘‘bem simpática’’, mesmo porque ‘‘ela tocava’’. Que ajuda Santa Cecília poderia dar aos protegidos? A mesma que Álvaro anseia. ‘‘As pessoas estão ouvindo o que está rolando na mídia, só vão atrás daquilo que vêm e ouvem no rádio. Precisamos de gente que vá às lojas, como se fazia antes, para explorarem outros nomes e sons. Precisamos também de mais espaço para o músico’’, observou.(Z.C.L.)

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