Os artistas de Worpswede
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de janeiro de 2009
Rodrigo Juste Duarte<br> Equipe da Folha 
O estigma do artista incompreendido em vida é uma constante no universo da pintura. A história do holandês Vincent Van Gogh, que morreu aos 37 anos sem sentir o gosto do reconhecimento artístico é o caso mais lembrado. O francês Paul Gauguin e o estadunidense Jackson Pollock são outros dois exemplos representativos.
A lista é longa, e nela também está o nome da alemã Paula Modersohn-Becker, que morreu aos 31 anos sem ser compreendida nem mesmo por seu marido Otto Modersohn, que também era pintor. No entanto, ela entrou para a história das artes como primeira artista a contribuir para a construção da arte modernista da Alemanha.
Uma amostra do legado da pintora pode ser vista no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, onde está em cartaz a exposição ''Paula Modersohn-Becker e os artistas de Worpswede'', composta por 62 trabalhos sobre papel (entre pinturas, gravuras e desenhos), 19 fotografias e diversos livros expostos em vitrines, datados de 1884 a 1907.
Nos primeiros corredores do salão são exibidos 19 trabalhos de Paula, que procura retratar o interior dos habitantes de Worpswede, vilarejo alemão onde fixou residência nos primeiros anos do século XX. Ela foi até lá atraída pelo trabalho de cinco artistas que romperam com o ensinamento formal de Belas Artes e se ''refugiaram'' na pequena aldeia próxima a Bremen, na Alemanha, para montar um grupo de vanguarda com o intuito de produzir um novo tipo de pintura, inspirada na natureza e nas paisagens bucólicas.
Paula, que chegou ao local quase uma década após o início do movimento, não chegou a fazer parte do grupo pois este havia rompido - Otto, que viria a ser seu marido, deixou os companheiros alegando que a sociedade havia ganhado um caráter comercial, com a crescente demanda de quadros produzidos sob encomenda. No entanto, ela se aproximou de todos os cinco pintores e imprimiu uma via mais profunda, inspirada em seus trabalhos: em vez de representar apenas o exterior, as paisagens e o ambiente do campo, Paula se interessou em retratar as pessoas da colônia, buscando a assência interior daquele povo.
Seus desenhos apresentam fazendeiras segurando bebês, crianças ao lado de gansos e senhoras idosas em seus ambientes campestres. Paula explicava que era atraída pela ''simplicidade e grandeza'' daquelas pessoas. Em sua bagagem para retratar a essência interior dos camponeses estavam os velhos mestres franceses do Louvre, Van Gogh, Gauguin e (principalmente) as pinturas de Cézanne.
Após a seção de quadros de Paula, as paredes da exposição começam a exibir trabalhos dos demais artistas de Worpswede. Otto Moderson e Fritz Overbeck utilizavam técnicas de crayon e gravura, retratando pântanos, cabanas e plantações de turfa (principal fonte de renda dos camponeses da cidade). Hans Am Ende também se inspirou nas paisagens locais para produzir gravuras super detalhistas, que remetem a Rembrandt.
Fritz Mackensen, primeiro dos artistas a abandonar seu ateliê na cidade grande, gostava de trabalhar com a penumbra, em pinturas de tons escuros, quase monocromáticos. Já Heinrich Vogeller mostra-se o mais anárquico dos cinco, especialmente em relação aos temas. Obras como ''Noiva de Sapo'' e ''Conto (A Pastora)'', brincam com histórias infantis e revelam a ironia nervosa do artista, além de seu espírito revolucionário - em 1931 ele se mudou para a Rússia, onde foi pago para divulgar a Revolução através da pintura.
A etapa final da mostra apresenta fotografias de época, que transitam entre o acervo documental e a foto artística. Nelas é possível ver imagens de época dos artistas de Worpswede e de Paula Modersohn-Becker. Um dos retratos, em que a pintora aparece segurando sua filha Mathilda, foi feito pouco antes de sua morte, em 1907, vítima de uma doença circulatória. Em menos de 10 anos, Paula produziu cerca de 700 pinturas, mais de mil desenhos à mão e 13 gravuras.
Serviço
- Paula Modersohn-Becker e os artistas de Worpswede
Quando - Até 15 de fevereiro, visitação de terça a domingo, das 10h às 18h
Onde - Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba
Quanto - R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia para estudantes)
Mais informações - (41) 3350-4442


