Anões costumam ser pequenos e atarracados. Com 60 páginas em papel cartonado, bem grosso, e medindo 16 cm de altura e 12 cm de largura, ''Os Anões'' bebe na fonte do livro-objeto.
É um volume pequeno e atarracado. Sua singularidade, porém, vai além do formato. Os textos de Veronica Stigger não se parecem com nada que você leu antes.
O livro de estreia dessa gaúcha que vive em São Paulo foi lançado primeiro em Portugal, em 2003, saindo no Brasil no ano seguinte. ''O Trágico e Outras Comédias'' já impactava com textos tão curtos quanto contundentes.
Já ''Gran Cabaret Demenzial'', de 2007, mostrava a escritora ainda mais solta. Entre fábulas e poesia, a violência desembestava, fluida.
''Os Anões'' segue, digamos, a mesma linha. É reconhecidamente um parente bem próximo dos livros antecessores, mas dizer isso não deve ser confundido com uma insinuação de que a autora fez mais do mesmo. Nada seria tão descabido.
Trata-se de uma escritora que nunca se repete. Seus textos podem ser poemas, microcontos, roteiros, peças, recados... Uma brincadeira com os gêneros.
Se existe alguma regra, é a da imprevisibilidade. O cotidiano é distorcido, deformado até. Rompe os padrões das ações dos personagens. Sua coleção de tipos esquisitos e/ou deslocados é extensa.
Anões linchados em um supermercado, canibais que só não devoram turistas porque sabem que esses são fonte de renda, uma camponesa que leva um tiro nas nádegas na temporada de caça, uma mulher que se suicida na festa que chamou em seu apartamento novo.
Em outras épocas, a literatura de Veronica Stigger seria chamada de experimental. Um rótulo datado, mas justo. Ler o que ela escreve é esperar sempre pela surpresa, pela linha seguinte que não deveria estar ali. Uma delícia.
SERVIÇO
- Os Anões
Autor - Veronica Stigger
Editora - Cosac Naify
Quanto - R$ 37 (60 págs.)

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