Os amores de Di Cavalcanti
O diretor Durval Garcia concorda com o escritor Jorge Amado quando ele afirma que, se Deus criou o homem, Di Cavalcanti foi quem criou a mulata. De fato, Emiliano Di Cavalcanti foi um dos primeiros artistas plásticos a representar temas assumidamente brasileiros em seus trabalhos. Um dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, ele se destacou, principalmente, por retratar tipos exuberantes e sensuais, centrados na figura da mulata. No final do ano em que se comemora o centenário de nascimento de Di Cavalcanti, o diretor e roteirista Durval Garcia conclui a fase de captação de recursos do filme Simplesmente Di, que enfoca a conturbada vida amorosa do pintor modernista. Nunca é tarde para homenagear um dos artistas plásticos mais importantes deste século, diz, justificando o atraso.
O fato de não ter incluído Simplesmente Di nas comemorações do centenário de Di Cavalcanti não diminui o entusiasmo de Durval Garcia. Diretor de filmes de pouca repercussão, como Ana Terra e Adágio ao Sol, Durval pretende chegar ao grande público através da tumultuada história de amor de Di Cavalcanti com a também artista plástica Noêmia Mourão. Ciente das críticas que James Ivory, o diretor de Os Amores de Picasso, sofreu ao reduzir o pintor espanhol a um mero torturador de mulheres, Durval Garcia ressalta que não tem a menor intenção de repetir o erro do cineasta inglês. Mesmo assim, avisa que não pode deixar de retratar no filme os muitos casos amorosos que Di Cavalcante manteve com suas modelos. Noêmia não sentia o menor ciúme das mulatas que posavam para Di, porque entendia que aquilo era importante para o aprimoramento profissional do marido, arrisca o diretor.
Escrito pelo próprio Durval, Simplesmente Di começa em 1922, na Semana de Arte Moderna de São Paulo, quando Noêmia Mourão, então uma jovem de 12 anos, ficou encantada ao conhecer o pintor, na época com 25 anos. Na ocasião, Noêmia prometeu a si mesma que, além de seguir a carreira de pintora, também se casaria com o artista. Dito e feito. Já casados, Di Cavalcanti e Noêmia Mourão foram trabalhar como correspondentes na extinta Rádio Paris-Mundial. Na França, os dois foram surpreendidos pela invasão nazista e obrigados a fugir para a Itália. A pressa foi tanta que eles tiveram de deixar todos os quadros pintados naquele período num ateliê de Paris. Embora seja baseado numa história verídica, as aventuras são tantas que até parece que é ficção, exalta.
Com um orçamento de R$ 4 milhões, Simplesmente Di inclui locações na França e Itália. A chance de filmar fora do País, porém, está sendo um empecilho para Durval Garcia fechar contrato com Pedro Paulo Rangel. Atualmente em cartaz no Rio com a peça Arte, dirigida por Mauro Rasi, Pedro Paulo ainda não confirmou presença como protagonista. Enquanto procurava seu ator principal, Durval tratou logo de selecionar duas das quatro musas inspiradoras do artista. Apesar do nervosismo da estréia no cinema, tanto a cantora Simone Moreno quanto a atriz Luzia Avellar estão confiantes no projeto. Uma boa história de amor tem tudo para agradar homens e mulheres das mais diferentes idades, acredita Simone.
A idéia de levar para as telas a vida amorosa de Di Cavalcanti já dura seis anos. A primeira providência tomada por Durval Garcia foi a de conseguir junto à família os direitos de imagem do artista plástico falecido em 1976. A mesma sorte não teve Almir Muniz que, no ano passado, não conseguiu autorização da filha do terceiro casamento de Di, Elizabeth Veiga Cavalcanti, para filmar Cartas à Divina. O filme abordava o envolvimento amoroso do pintor com uma amante 40 anos mais nova. Para evitar dor de cabeça igual à de Almir Muniz, Durval escreveu o roteiro até o término do segundo casamento. Além de liberar os direitos de imagem, a família do pintor ainda forneceu farto material biográfico. Se eu tivesse de pesquisar isso por conta própria, teria levado a vida inteira..., exagera.Jorge Rodrigues Jorge/Carta Z NotíciasSimone Moreno e Luzia Avellar: Uma boa história de amor tem tudo para agradar homens e mulheres das mais diferentes idadesAndré Bernardo
Cult Press





