Arquivo FolhaAngelo Antonio: ‘‘Não quero fazer o Betinho. Quero fazer um Betinho’’Além da fome que assola legiões de brasileiros, Betinho tinha mais em que pensar. Em 1996, um ano antes de sua morte, pediu à prima Ailce que montasse uma lista daqueles que ele conhecera em Bocaiúva, sua cidade natal, no interior de Minas, e que já tinham morrido. ‘‘A Lista de Ailce’’ transformou-se em livro e agora em peça de teatro, com estréia marcada para esta noite, na Sala Dina Sfat, do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.
No palco, um único ator, Angelo Antonio, vivendo o protagonista: um homem esperando pelo trem, numa estação ferroviária. Enquanto aguarda o comboio, relata em voz alta a sua vida e a de todos aqueles que lhe foram caros. A mãe, Henfil, vizinhos, parentes, animais de estimação, Aids - tudo vai entrando nesse barco. Especialmente a morte, elemento onipresente que a tudo espreita. Mas para quem esteve sempre ligado ao riso e à alegria, não há razão para o fim ter o peso do sofrimento. Até mesmo a mais densa despedida guarda alguma coisa de divertimento.
Responsável pela direção e transposição da obra para o palco, o ator Elias Andreato sensibilizou-se com o trecho do livro em que o autor conta das pessoas e dos animais mortos. ‘‘O trem também morreu’’. Trem para mineiro e brasileiro em geral tem uma simbologia muito grande. Daí veio a concepção do homem na estação, com uma malinha na mão e os trilhos (que podem ser as linhas da vida, do destino, indicando seu destino).
No céuEsse passageiro fatalmente chegará a algum lugar. De certo modo Andreato antecipou o final do espetáculo, em conversa com a Folha2, ao narrar uma conversa mantida com Chico Buarque, autor da letra de uma única música feita por Guinga, na trilha sonora do espetáculo (assinada pelo curitibano Chico Mello):
- Quando o Chico me ligou para perguntar de onde partiria para a sua música, disse a ele que gostaria que ela sintetizasse quem foi Betinho, assim como se ele estivesse chegando no céu. É uma leitura meio óbvia, mas ele merece o céu, tem o direito de entrar.
HomenagemO diretor é enfático - ‘‘A Lista de Ailce’’ não é o exercício de colocar um personagem real em cena. ‘‘Queremos prestar uma homenagem a ele; estamos usando as palavras dele para tentar criar um personagem às vezes fictício’’, explica. ‘‘Não temos o compromisso de fazer o personagem do Betinho’’.
O ator Angelo Antonio reforça: ‘‘Não quero fazer o Betinho. Quero fazer um Betinho. Esse homem que estou buscando é um sujeito corajoso, desafiador. A minha procura interior, na composição do personagem, foi no sentido de amadurecer esses sentimentos, essas energias’’.
Algumas vezes, ao se lembrar das pessoas de Bocaiúva, o narrador se transforma nelas próprias. De uns 30 nomes citados, mais ou menos a metade traz esses flashes.
LuminosidadeApesar de ter sido uma pessoa sempre doente, Betinho não perdia o bom humor, nem a oportunidade de criar uma frase irônica, engraçada. ‘‘Tentamos ressaltar esse lado no espetáculo - o da delicadeza do humor que ele tinha’’, explica Andreato. Daí a peça ter um tom ‘‘âmbar quente’’. ‘‘Não é o sépia nostálgico. É uma coisa de força, de luz. Ensolarado, porque o personagem é um homem na vida, na estrada’’.
Por estar na vida, na estrada tem seus momentos de escuridão e trovoadas, ‘‘mas o tempo torna a ficar claro, limpo para ele continuar a sua caminhada’’, diz o diretor. Explica-se, portanto, a luminosidade do espetáculo. ‘‘Em nenhum momento ele é pesado. Às vezes é trágico, agressivo, mas no geral predomina a leveza, o humor’’, continua Andreato.
Por coincidência o ator que faz o monólogo é também mineiro, imerso num universo místico. ‘‘Angelo é muito sensível, preocupado com o espírito, a alma’’, diz o diretor. A parceria está sendo gratificante: ‘‘Temos muita afinidade trabalhando juntos’’. O ator devolve: ‘‘Elias é muito generoso, não tem a vaidade própria do ator. Para ele a arte está acima das coisas terrenas’’.
• A Lista de Ailce - texto de Betinho. Concepção e direção de Elias Andreato. Com Angelo Antonio. Estréia hoje, na Sala Dina Sfat do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.

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