Augusto Boal fala sobre o panorama mundial do Teatro do Oprimido e as dificuldades da expansão da prática no Brasil
Com fala mansa – e incansável – Augusto Boal se empolga, gesticula muito e extravasa emoção ao contar suas histórias. ‘‘A mais linda que aconteceu com o Teatro do Oprimido em toda a minha vida foi em novembro do ano passado’’, revela. Depois de se apresentarem em praças, ruas, comunidades, sete grupos do Centro do Teatro do Orpimido do Rio de Janeiro quiseram fazer um espetáculo num teatro. O resultado foi um festival com todos eles no Teatro Glória. ‘‘Um dos grupos era formado por empregadas domésticas. No dia da apresentação, todo mundo feliz, soube que uma delas estava chorando. Fiquei preocupado e quis saber o porqu꒒, conta. O relato da moça, a seguir, ilustra por que Boal se sente gratificado e orgulhoso por tudo que o Teatro do Oprimido proporciona ao cidadão.
‘‘Nós empregadas domésticas fomos ensinadas a ser invisíveis. As coisas acontecem e quem fez? Ninguém. Foi a empregada invisível, muda e surda. Hoje, ao contrário, eu estava em cena e veio o iluminador e pediu para colocar uma luz para combinar com meu vestido. Veio outro e botou um microfone para que minha voz chegasse à última fileira. Eu, que sou invisível, vejo gente me iluminando. E o que era mais bonito é que à noite fui aplaudiada, olhei para a platéia e vi a família toda para a qual trabalho lá no escuro, vendo que eu existo e sentindo minha emoção. Fiquei emocionada quando voltei para o camarim e me olhei no espelho e vi uma mulher. Antes, eu via uma empregada doméstica’’.
O Teatro do Oprimido nasceu num momento difícil no Brasil, como Boal relata nas páginas sobre a repressão da ditadura. O embrião veio em forma de Teatro Jornal, na cidade de São Paulo. ‘‘Era passar para o espectador a forma de fabricar teatro, os meios de produção e não o produto’’. A sequência veio com o Teatro Invisível e o Teatro Fórum no Peru e na Argentina, e ‘‘O Arco-Íris do Desejo’’, que são as técnicas psicoterapêuticas do Teatro do Oprimido. O Teatro Legislativo fecha de certa forma o ciclo. ‘‘Isso começou no Brasil, se desenvolveu fora – na América Latina e na Europa – e depois voltou para o nosso país’’.
Algumas poucas experiências tiveram resultados marcantes. Uma delas aconteceu quando Boal era vereador no Rio de Janeiro, no início da década de 90. O Centro do Teatro do Oprimido tinha 19 grupos permanentes de teatro popular espalhados pela cidade. ‘‘Apresentamos uns 40 projetos e promulgamos 13 leis, que vieram diretamente da população. Algumas muito específicas e outras bem gerais, como a Lei de Proteção a Testemunhas de Crimes. Esta lei foi adotada também no Espírito Santo e basicamente é o que está sendo projetado para a Lei Nacional de Proteção a Testeminhas’’. A lei foi formulada a partir de reações do público e da intervenção dos espectadores em cena.
Na cidade de Santo André (SP), o Centro do Teatro do Oprimido conseguir ser implantado dentro do poder Executivo. Toda a assembléia de orçamento participativo começa com um espetáculo de Teatro Fórum. Como acontece? O grupo prepara peças sobre os temas que serão debatidos. Uma experiência nova mundialmente, garante Boal.
O teatrólogo circula pelo mundo todo fazendo o que chama de sessões solenes simbólicas de Teatro Legislativo. A primeira foi em Londres, no Greater London Council (a Câmara de Vereadores de Londres que foi fechada por Margareth Tatcher em 1986). Platéia lotada, a sessão presidida por Boal resultou numa votação simbólica. A experiência foi repetida em outras cidades da Inglaterra, Áustria e Alemanha. ‘‘Essas sessões são importantes porque são símbolos de que é possível fazer leis. Elas não caem do céu, são desejo de alguém. E por que têm de ser o desejo dos poderosos? Pode ser também o da população. O que a gente quer é que o desejo da população de transforme em lei’’.
Essa forma de Teatro Legislativo, como divulga Boal, está se expandindo pelo mundo afora. ‘‘No começo as pessoas falavam que era bom para a América Latina, que na Europa não pegava. Agora tem muito mais na Europa do que na América Latina’’.
O motivo desta prática não ter se expandido de forma abrangente no Brasil tem uma justificativa para Augusto Boal: ‘‘A gente tem governos que são ditaduras disfarçadas. Tivemos a ditadura militar, mas agora tem a ditadura da inércia. Veja que a atual política econômica refletida na cultura está aniquilando com ela. Hoje em dia para fazer um projeto qualquer você tem que ir de joelhos com um pires na mão, de companhia em companhia.
Esse reflexo não incide somente sobre o Teatro do Oprimido. Questionado sobre o que acha do teatro hoje no Brasil, o dramaturgo é incisivo: ‘‘Eu não sei. Se alguém der uma resposta afirmativa é mentirosa. Quem é que sabe o que é o teatro brasileiro? Quem anda pelo Brasil afora vendo teatro? Eu não sei o teatro que fazem aqui em Londrina! A gente sabe o que a imprensa diz’’. O que Boal é convicto em afirmar são os maus-tratos que sofre o teatro brasileiro. ‘‘A privatização da cultura visa a aniquilar a cultura. O objetivo dessa privatização são as leis de sonegação fiscal, chamadas de Leis de Incentivo à Cultura. É sonegação fiscal, porque permite oficialmente que as pessoas soneguem uma parte do imposto que deveria ir para o governo para fazer publicidade de sua próprias firmas’’, encerra.

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