No espaço elegante e acolhedor da galeria Arte Singullar, em Curitiba, a exposição de telas em grandes dimensões de Rones Dumke reina soberana. O artista que durante anos pautou seu trabalho produzindo temas figurativos, inclusive com influências clássicas, lançou-se ao abstrato.
Apesar da mudança, sente-se nos 12 quadros a personalidade ‘‘dumkeana’’, como se na exuberância das cores estivesse guardada a reverência às formas. Algumas pistas do autor são mais que evidentes, como os arabescos colocados em algumas telas.
Rones Dumke não gosta da palavra ‘‘fase’’. Prefere dizer que está inaugurando uma nova etapa: ‘‘É um novo degrau num processo evolutivo de trabalho’’. Ele cita exposições anteriores onde o público se acostumou aos desenhos com lápis de cor, ‘‘alguma coisa feita com lápis pastel’’, imagens surrealistas que remetiam ao clima de De Chirico. ‘‘O elemento central era sempre a figura humana, com simbologia, o conteúdo rico de significados’’.
Para chegar a estas telas passou antes pelas colagens. Elas ocuparam uma grande mostra no Memorial de Curitiba, em 1999, com cerca de 100 imagens reproduzidas de seus próprios originais. ‘‘Eu digitalizava e imprimia a laser. As colagens foram a ante-sala para eu chegar onde cheguei no trabalho com as formas, as cores’’, comenta. ‘‘Se não tivesse passado por essa disciplina eu não estaria aqui’’.
Apesar de contar com maior liberdade para a composição das obras, ainda assim permanece a confessada atração de Dumke pelo rigor das formas sempre bem delineadas. Ele se vale também de ‘‘malhas geométricas’’ que se interpenetram num segundo plano. Estas, na visão do artista, representam ‘‘uma outra ordem de significação que está acontecendo por detrás’’.
‘‘É o tipo de uma dialética que gosto de usar no trabalho: a questão de aproximar os elementos contrários. De repente, num chapadão, tem-se o detalhe. Nada mais é que um processo de dialética, inclusive na parte de cor’’, continua Dumke.
A música insere-se nas analogias do autor. ‘‘Costumo dizer que as formas maiores são as frases musicais mais longas’’, confessa. Tem os movimentos mais lentos, os adágios, o barroco. ‘‘De repente a malha geométrica seria o ornamento, uma coisa mais barroca da música, um solo. O preto seria o silêncio’’.
Dentro dessa linguagem é natural que se pergunte quais músicas representariam sua obra anterior e quais as que representam sua obra atual? Rones Dumke é sucinto: ‘‘Na obra anterior sempre trabalhei com o barroco; agora são peças contemporâneas mesmo.’’
Serviço
Rones Dumke expõe pinturas abstratas na galeria Arte Singullar, Rua Saldanha Marinho, 1582. Aberta de segunda a sexta-feira, das 10 às 19 horas, sábados das 10 às 15 horas. Até 2 de fevereiro.

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