Os 60 anos do Recruta Zero
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Jotabê Medeiros<br> Agência Estado 
Sua primeira historinha foi aprovada pessoalmente por William Randolph Hearst, o ''Cidadão Kane''. Está entre as séries mais antigas ainda desenhadas pelo próprio autor (Mort Walker, aos 86 anos, faz a tira há ininterruptos 60 anos). ''Beetle Bailey'', que no Brasil recebeu o nome de Recruta Zero, surgiu em 4 de setembro de 1950 e fez sua fama como uma denúncia do purgatório que é o Serviço Militar, com os seus sargentos sadomasoquistas, seus superiores hierárquicos distanciados (e ''paus-mandados'' de suas mulheres). E os recrutas ensaboados, cheios de truques para fugir dos trabalhos pesados e da rotina espartana.
Por se tratar de uma paródia debochada do militarismo, Recruta Zero pisou em ovos ao atravessar os anos mais bélicos da vida americana. Os soldados o adoravam, os generais deploravam-no. A revista Mad, em abril de 1969, ''tirou'' o lendário bonezinho que recobre eternamente os olhos do Zero e na sua testa estava escrito: ''Caiam fora do Vietnã''.
No dia 4 de março de 1981, o jornal ''Tribune'', de Minneapolis, suspendeu a tira do ''Recruta Zero''. No lugar onde ela era publicada, saiu um comunicado: ''Beetle Bailey não aparece hoje na página de quadrinhos porque o tema foi considerado sexista pelos editores.''
Por ''sexista'', entenda-se uma briga entre as feministas e o autor para que ele cessasse o assédio do General Dureza à sua secretária Dona Tetê, proprietária de um adorável guarda-roupas com minissaias, decotes, terninhos e um rebolado cobiçado por todo o Quartel Swampy, onde se passa a ação. ''Isso é um insulto às mulheres que trabalham'', escreveu uma entre as centenas de leitoras que protestavam. ''É a fantasia de um homem velho!'', escreveu outra.
Em 1990, uma outra tira do personagem, com todos os recrutas mostrando as nádegas ao Sargento Dureza, causou controvérsia e foi censurada em alguns jornais. Quando terminou a Guerra da Coreia, o Recruta Zero foi visitar a irmã e o cunhado. Isso originou outra tira escrita por Mort Walker: ''Zezé & Cia'' (''Hi and Lois''), com desenhos de Dick Browne, que viria a criar ''Haggar, o Horrível''.
Mort Walker não considera o Recruta Zero um ''loser'', um perdedor clássico da tradição americana. ''Acho que o Sargento Tainha, sim, é um perdedor. O Recruta Zero, com suas artimanhas, foge daquilo que o oprime. É um vencedor''.
Não há mais uma revista exclusiva para o Recruta Zero sendo publicada no Brasil. Isso já aconteceu no passado, primeiro com a Rio Gráfica Editora, depois Editora Globo, que editou gibis com histórias produzidas por roteiristas e desenhistas nacionais, sob aprovação do autor. O personagem ganhou aqui, no Brasil, o nome que pertence, na verdade, a outro personagem da tira, o Dentinho (''Private Zero''), mas que foi considerado mais adequado para os editores nacionais.
O estilo e a verve de Mort Walker influenciaram gerações ao redor do mundo. No Brasil, um humorista que confessa a influência é Reinaldo Figueiredo, da trupe Casseta & Planeta.''O meu estilo é uma mistura de Jaguar, Millôr, Nássara, Carlos Estêvão, Steinberg, Robert Crumb, Wolinski, Topor, B. Kliban, John Glashan, e uma pitada de Mort Walker, aquele cara do Recruta Zero...''.
Hugo Escalera, diretor internacional da empresa Creative Licensing (responsável pelos direitos do personagem no Brasil), diz que, como Betty Boop, o Recruta Zero não deve seduzir novos leitores: ''É um culto retrô''.


