Os 60 anos da telenovela
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sábado, 17 de dezembro de 2011
Camila Brandalise <br> Folhapress 
São Paulo - Quando o primeiro capítulo da primeira telenovela brasileira foi ao ar, ao vivo, no dia dia 21 de dezembro de 1951, o gênero era motivo de maledicência. ''Todo o mundo falava mal das novelas. Ninguém queria fazer, porque a maioria dos atores dava mais credibilidade às grandes peças de teatro que eram exibidas naquela época pela televisão'', relembra Vida Alves, atriz do elenco de ''Sua Vida me Pertence'', folhetim que inaugurou a história das telenovelas no Brasil.
Passados 60 anos desde o seu começo nada triunfal, a novela é um dos principais produtos culturais do país. Mas a evolução, vale lembrar, foi gradativa.
A trama de 15 capítulos, com 15 minutos de duração, exibida duas vezes por semana, como era em ''Sua Vida me Pertence'', mudou muito até chegar ao formato atual. A começar pela exibição diária. ''As novelas só pegaram depois que começaram a passar todo dia, em 1963, criando o hábito de prender o telespectador'', diz Nilson Xavier, autor do ''Almanaque da Telenovela Brasileira''.
Em ''Sua Vida me Pertence'', que marcou a estreia do folhetim televisivo no país, Vida Alves interpretou a mocinha. No mais, ela confessa não se recordar de muita coisa. ''Depois de tantos anos, cheguei a perguntar ao Walter Forster se ele lembrava a história da novela'', comenta Vida, referindo-se ao colega que escreveu, dirigiu e formou o par romântico da trama ao lado dela. ''Ele disse que não. Perguntei: ''Então, como farei nas entrevistas?'. Forster respondeu: 'Inventa''', relembra ela, caindo na gargalhada.
Também no elenco de ''Sua Vida me Pertence'', Lima Duarte, ao ser questionado sobre as lembranças que tem daquela primeira produção, é bastante incisivo. ''Não tenho'', rebate, para logo desatar a falar. ''Só sei que fiz o primeiro bandido. Mas teve o primeiro de tudo naquela novela, o primeiro pai, a primeira mocinha. Tudo o que existe até hoje, lá teve primeiro. Foi uma novela de rádio feita na TV'', diz. Hoje um ator consagrado, Lima Duarte revela que novela não era o seu foco na época. ''Não tinha o sonho de fazer. Além do mais, televisão era uma coisa a que ninguém assistia.''
Foi a partir de de 1980, com o aumento do número de personagens e da presença e importância de tramas paralelas, que a novela passou a ultrapassar os 45 minutos de duração por capítulo, explica Mauro Alencar, membro da Academia de Artes e Ciências da Televisão de Nova York e doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana pela USP (Universidade de São Paulo).
Era o começo da industrialização do gênero, cujo auge aconteceu na década de 1990. ''Houve um grande apuro técnico propiciado pela informática e a solidificação de um modelo de produção industrial'', comenta Alencar.
''A evolução da linguagem é algo natural'', opina o diretor Ricardo Waddington, responsável pelo núcleo de tramas globais de sucesso, como ''Laços de Família'' (2000-2001) e a elogiada ''Cordel Encantado'' (2011). ''Surgiram novas tecnologias, a escrita dos autores está mais arrojada. Muda o conteúdo, mudam os personagens, há mais profundidade. Mas a novela como folhetim, como romance, é um formato que vai existir para sempre'', acredita. ''É uma experiência coletiva e acho que dá certo porque é compartilhada entre as pessoas que acompanham as histórias'', diz Waddington.
''As novelas tratam os assuntos nacionais com uma linguagem nova, que desperta o interesse do público. Com o tempo, elas ganharam recursos de produção e tornaram a fórmula melhor'', comenta José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, criador do Projac e conhecido como mago da TV brasileira. Apesar de exaltar a evolução, Boni desabafa: ''Gostava mais do conteúdo das tramas antigas. Elas me emocionavam mais''.
Lima Duarte concorda. ''Acho que falta mais sonho, mais poesia. No passado, as produções eram melhores, mais bonitas, mais apaixonadas. Hoje tem muita bunda, muito peito'', critica o ator. Assim como Boni e Lima Duarte, o público também parece estar saudoso em relação aos clássicos da teledramaturgia. Basta acompanhar o sucesso que as novas versões de tramas antigas e as reprises têm alcançado. ''Os anos 2000 continuam a trilhar o caminho já percorrido anteriormente, mas também criam um espaço propício aos remakes, que nada mais são do que revisitar e admirar uma história de sucesso, lágrimas e emoções'', define Mauro Alencar.
Corta para o ano de 1951. Na exibição do último capítulo de ''Sua Vida me Pertence'', Walter Forster encostava os seus lábios nos de Vida Alves, e os dois, não bastasse protagonizar a primeira novela, foram os responsáveis também pelo primeiro beijo. O burburinho que a cena causou na época já adiantava o que iria acontecer 60 anos depois. É coisa de brasileiro: mesmo aquele que não assiste sabe o que está acontecendo na novela.


