Até Hollywood reconhece: o cinema nunca mais foi o mesmo depois da nouvelle vague, ou a nova onda, lançada ao mundo pelos ‘‘Cahiers du Cinema’’ no início dos anos 60
É difícil imaginar a transcendência de uma única revista de cinema contemporâneo se o parâmetro for o aspecto meramente informativo adotado pela esmagadora maioria das publicações especializadas atuais. A francesa ‘‘Cahiers du Cinema’’, que este mês comemora 50 anos de vida, nunca desfrutou da relevância e nem do peso específico das tradicionais norte-americanas ‘‘Variety’’ e ‘‘Hollywood Reporter’’, que sempre trilharam
com mais desenvoltura os caminhos do entretenimento e do show businness. Mas os talentos singulares que redigiram as páginas dos ‘‘Cahiers’’ durante duas décadas redefiniram para sempre dois pontos cruciais: o pensamento crítico, original, explícito em abundante teoria, e o revolucionário fazer cinematográfico, consequência natural.
De volta à alvorada dos anos 60, presidida por um novo, agitado, irrequieto espírito. Os Estados Unidos despertavam da letargia sob Eisenhower para um jovem e dinâmico líder, John Kennedy. Os países da Europa oriental aos poucos se libertavam da escravidão imposta pelo stalinismo, e mais e mais países colonizados encontravam o caminho da liberdade. Em todas as partes, ecos da batalha entre o progresso do espírito em marcha irrefreável e o imobilismo. O cinema, nesta encruzilhada, teria que se ajustar aos tempos prementes e responder às aspirações dos cidadãos de todas as partes. Somente uma mudança drástica poderia salvar a indústria do filme, então perdendo público cada vez mais rapidamente. E os primeiros sinais de uma ruidosa transformação partiram da França já em 59 através da nouvelle vague, varrendo continentes e inclusive afetando as até então inexpugnáveis trincheiras de Hollywood.
Mas o saudável embrião da ‘‘nova onda’’ começaria a ser gestado em 1951, exatamente nas páginas de uma revista, os ‘‘Cahiers du Cinema’’, publicação fundada pelo gênio teórico de André Bazin, que seria inspirador de um faminto grupo de ratos de cinemateca. Sob a tutela de Bazin - que em 1947 já havia fundado ‘‘La Revue du Cinema’’ ao lado de outro pensador, Jacques-Doniol-Valcroze -, jovens jornalistas e intelectuais passam ao exercício da crítica - uma crítica ácida que subverte os valores cinematográficos placidamente vigentes. Durante quase toda a década, os críticos dos Cahiers viram as costas para a clássica produção realista francesa anterior à guerra, ignoram ou hostilizam até mesmo todo o universo de imagens poéticas do pós guerra, que consideram estereotipado, acadêmico ou ultrapassado, e redescobrem e revalorizam diretores americanos como Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Nicholas Ray, Orson Welles, Ernest Lubitsh, Fritz Lang e Charlie Chaplin. Para os garotos em plena efervescência da crítica demolidora, entre os da casa apenas Jean Renoir e Robert Bresson são preservados, e entre os demais europeus, Roberto Rosselini como figura emblemática do neo-realismo italiano, ancestral próximo da nouvelle vague.
Mas libertária e impaciente, esta novíssima geração não se satisfaz somente publicando elegias críticas à liberdade de criar. As colunas dos ‘‘Cahiers’’ passam à retaguarda. François Truffaut, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, Louis Malle, Alain Resnais, Éric Rohmer, Jacques Demy saem da redação, dão as costas aos métodos convencionais de filmagem e fundam a ‘‘Nouvelle Vague’’, rótulo de batismo surgido em 58 nas páginas do semanário ‘‘L’Express’’ como definição jornalística da novidade. Nas ruas, entusiasmo, atrevimento, ousadia com a câmera na mão, equipes reduzidas, muita improvisação, narrativas desconstruídas, montagem descontínua, citações literárias ou de outros filmes. Enfim, a descoberta-invenção da teoria do autor. Entre março e maio de 1959 estrearam nas salas de Paris ou em Cannes os primeiros filmes de Chabrol (‘‘Le Beau Serge#/Nas Garras do Vicio’’, Truffaut (‘‘Les 400 Coups’’/ Os Incompreendidos) e Resnais (‘‘Hiroshima Mon Amour’’). A estas primeiras obras se juntaram quase imediatamente ‘‘Le Signe du Lion’’, de Rohmer, e ‘‘A Bout de Souffle’’ (Acossado), de Godard. Somente em 1960, 18 diretores assinaram seus primeiros filmes na França. Em 1962, os ‘‘Cahiers du Cinema’’ dedicaram um número inteiro a nouvelle vague.
Depois dessas estréias, vários títulos notáveis se seguiram, firmando esteticamente o movimento - no todo, porém, a nouvelle vague não se comprometeu como programa político-ideológico, optando por uma espécie de neutralidade anárquica. A radicalização veio em maio de 68, e com ela a dispersão, já desenhada durante os anos 60 e causada por duas razões: o êxito e a diversidade. O sucesso arrastou rapidamente esses cineastas ao território mais convencional da indústria, onde foram afinal absorvidos. Eram personalidades muito diferentes, e cada um seguiu seu caminho. Mas talvez por comodidade se continuou falando de cinema de nouvelle vague por cerca de mais 15 anos, quando somente restavam cinzas e um certo perfume no ar. Que, a propósito, não era mais exclusivamente francês. Os cinemas nacionais - o Brasil, entre tantos - ganharam alento e se revitalizaram no início dos anos 60. E sua evolução foi a mesma, com alguma exceção, em todos os casos: os apocalípticos se integraram à indústria ou ao oficialismo. Mas de qualquer maneira, com o neo-realismo antes e com as novas correntes depois, o cinema nunca mais voltou a ser o que era. Junto à consolidação constante da tradição renovada, a ânsia por um cinema sempre direto, ágil, objetivo e realista não cessou jamais. Tenha ele o nome de independente americano ou Dogma 95.

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