Os 40 anos de carreira de Célia
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
Arriscar sempre fez parte do histórico de Célia, um jeito que encontrou para se ajudar a não envelhecer. Ela começou num tempo em que as cantoras cantavam. Hoje há uma meia dúzia que faz isso bem. ''Muitas são maravilhosas, mas não cantam e não pensam. Porque cantar não é só cantar'', lembra a cantora, que celebra 40 anos de carreira com o CD ''O Lado Oculto das Canções'' (Som Livre).
Parece óbvio, mas a maioria das cantoras surgidas de uns tempos para cá não apresenta sequer a combinação básica de voz, afinação, personalidade e cuidados com o repertório e seu significado, além de detalhes como a prosódia, por exemplo. O novo trabalho de Célia é uma aula de boa música em todos esses sentidos.
São 40 anos de estrada, o que pode parecer muito tempo para os mais jovens, mas a jovialidade está presente nas ideias e na interpretação, entre outros itens que fazem de Célia a grande cantora que sempre foi, correndo no universo paralelo do mainstream da MPB. Em ''Vinho Antigo'' (Claudio Rabelo/Dalto), que abre o CD, por exemplo, ela parece uma menina. ''A personagem é uma garota, então eu tenho de fazer uma voz mais jovem'', diz. ''Elis Regina dizia: 'Para cantar, basta abrir a boca, o duro é entender o que você vai dizer.'''
A princípio, Célia tinha planejado fazer um songbook de João Bosco, mas acabou aceitando a sugestão de ''se homenagear'' feita por um de seus mais íntimos colaboradores, Fernando Cardoso, que assina a concepção e a direção artística do álbum, entre outras funções. O produtor Thiago Marques Luiz e o DJ Zé Pedro também têm sua cota de responsabilidade no ótimo resultado. Tanto no CD como no show, Célia canta acompanhada por Ogair Jr. (piano), Marcos Paiva (contrabaixo acústico) e Nelton Essi (percussão). Toninho Ferragutti (acordeon) é convidado.
Cordas e ousadias
Contemplada com patrocínio da Klabin, Célia pode se dar o luxo de contar com naipes de cordas e o cantor Ney Matogrosso, que faz duo com ela em ''Não Se Vá'', hit da dupla Jane & Herondy. Parte do repertório é do universo cafona dos anos 1970/80 - incluindo composições de Benito di Paula, Peninha, Guilherme Arantes e a dupla Evaldo Gouveia e Jair Amorim -, mas ela também ganhou inédita de Zélia Ducan e Hamilton de Holanda (''Desejo de Mulher'') e lapidou pérolas menos difundidas de Zeca Baleiro (''Cigarro''), Adriana Calcanhotto (''Vidas Inteiras''), Angela Ro Ro (''Meu Benzinho'') e Ana Carolina/Antônio Villeroy (''Aqui'').
Dois clássicos ressurgem completamente diferentes e inusitados. O funk ''Não Vou Ficar'' (Tim Maia) ganhou arranho jazzy, inspirado em ''Melody Gardot''. ''Apelo'' (Baden Powell/Vinicius de Moraes) não recai sobre afro-samba ou bossa nova, virou guarânia. Mas nada que se assemelhe ao estilo paraguaio. ''Porque eu sou chique, né?'', brinca a cantora.
''Cantiga de Quem Está Só'' (Evaldo Gouveia e Jair Amorim), originalmente um bolero, gravado por Altemar Dutra e Maysa, ganhou ares de zamba argentina. No final de ''Sonhos'' (Peninha) ela deixa uma interrogação, para discordar das interpretações do autor e de Caetano Veloso. Eis o que ela quer dizer com ''o lado oculto das canções'', título sugerido por Zé Pedro e extraído de um verso de ''Eternamente'' (Tunai/Sérgio Natureza), canção lançada por Gal Costa, que voltou na trilha da novela ''Escrito nas Estrelas''.
Não se trata de apenas pegar um repertório brega e torná-lo sofisticado, até porque Célia não se limita a esse terreno, mas de não se exercitar a prática da ousadia, valorizando ''muita coisa bonita'' que há por trás dessas canções. Com exceção de Benito di Paula e Vinicius de Moraes, todos os outros autores são inéditos na voz de Célia.
Tudo é muito sutil, ''mais para caixinha de fósforos do que para bumbo''. Acima de tudo, a cantora quis agradar seu público fiel. ''Perguntaram para mim se eu não achava que o disco estava muito elitista. Respondi que meu público é 95% de gays masculinos, o que para mim é uma felicidade danada. Essas pessoas não se importam se o disco está mais pra cima, mais pra baixo, pro meio ou pro lado. Fiz um CD para eles que me ouvem, não vou convencer o público de Zezé Di Camargo e Luciano a gostar de mim'', brinca.


