Hoje termina mais um festival e nada como lembrar uma data que começou a ser formalmente comemorada a partir de Cannes, quando, em 1959, François Truffaut ganhou o prêmio de melhor diretor por ‘‘Os Incompreendidos’’, enquanto a Palma de Ouro ia para o ‘‘Orfeu’’ de Marcel Camus. Este ano, comemoram-se 40 anos da Nouvelle Vague, o movimento dos cineastas franceses que, primeiro com afirmações às vezes ultrajantes, e mais tarde com filmes extraordinários que fizeram para provar essas afirmações, mudaram para sempre a cara dos filmes - e também o modo como o público passou a vê-los.
A crítica nova que fizeram, as arrasadoras e na época revolucionárias ‘‘politiques des auteurs’’ anunciavam que todos os filmes, mesmo as coisas mais terríveis, podiam ser vistos como obra de uma sensibilidade artística única, ou seja, do diretor como ‘‘autor’’.
Seus filmes, feitos com orçamentos limitados, lá fora no mundo real e não entre as paredes de um estúdio, transformaram a pobreza em riqueza visual. Os diretores trouxeram novos truques de edição, entre eles os cortes-saltos, que funcionam como uma espécie de taquigrafia cinematográfica. Redescobriram outros - como a ‘‘íris’’, graças à qual se isola um detalhe da imagem numa tela inteiramente negra - que haviam sido abandonados como anacrônicos com o advento do cinema falado. Foi quase uma reinvenção do cinema.
Jean-Luc Godard: primeiro longa-metragem, ‘‘Acossado’’, também foi lançado em 1959Não é exagero afirmar que se não houvesse Jean-Luc Godard não teria havido Rainner Werner Fassbinder, um dos raros cineastas de fato importantes da geração pós-Nouvelle Vague. E também não parece arbitrário concluir que, por mais que se admire os filmes de Spielberg, Brian de Palma e Francis Ford Coppola, a maioria deles parece bastante limitada em comparação com títulos como ‘‘A Noite Americana’’, de Truffaut, ou uma comédia altamente literária como ‘‘O Joelho de Claire’’, de Eric Rohmer. Os melhores filmes americanos representam um espécie de assessoria industrializada. São sempre mais pessoais em termos puramente técnicos.
Não menos notável na Nouvelle Vague foi seu poder de permanência. Até há cerca de uma década, filmes de Louis Malle, Claude Chabrol, Eric Rhomer e mesmo Godard mostravam sua vitalidade. E se Truffaut não tivesse morrido tão prematuramente, ainda nos anos 80, com certeza ainda estaria dando deliciosa vazão à linha humanista herdada de Jean Renoir. O mesmo pode se dizer de Malle, morto já nesta década. Embora não tivesse feito parte do grupo original dos cinco críticos do ‘‘Cahiers du Cinéma’’, que se tornaram cineastas e formaram a linha de frente da Nouvelle Vague, ele foi com certeza um precursor do movimento, com obras embrionárias como ‘‘Os Amantes’’ e ‘‘Trinta Anos Esta Noite’’. E suas principais obras realizadas nos Estados Unidos, ‘‘Pretty Baby’’, ‘‘Atlantic City’’ e ‘‘Meu Jantar com Andr钒 são tão ousados e originais quanto qualquer coisa feita na França.
Situa-se o nascimento da Nouvelle Vague em 1959, uma vez que foi neste ano que surgiram os primeiros filmes de longa-metragem de Jean-Luc Godard (‘‘Acossado’’) , François Truffaut (‘‘Os Incompreendidos’’), Eric Rhomer (‘‘O Signo do Leão’’) e Alain Resnais (‘‘Hiroshima Meu Amor’’), enquanto Jacques Rivette, descrito por Truffaut como ‘‘o mais fanático de todo o nosso bando de fanáticos’’, estava em plena filmagem de sua estréia, com ‘‘Paris nos Pertence’’. Na verdade, Rivette já tinha começado a rodar em 58 mas só concluiu em 61, em grande parte com sobras de filmes que lhe foram dadas pelos companheiros mais bem-sucedidos. Mas também ele pertence a esta safra.
Quem dava o primeiro passo era Claude Chabrol - a partir daí nunca mais deixou de produzir, mantendo nas últimas duas décadas uma impressionante média de quase um trabalho por ano -, que fizera seu primeiro filme em 58. O sucesso de ‘‘Le Beau Serge’’ abriu caminho para os demais, todos, à exceção de Resnais, conhecidos inicialmente como críticos grosseiros, maldosos, verborrágicos, rudes e extremamente tendenciosos, associados à revista Cahiers du Cinéma, de André Bazin. O ano de 59 foi um tempo louco de grandes esperanças - e recompensas. Em 58, após ridicularizar consistentemente os festivais de cinema em geral e o de Cannes em particular, foi formalmente banido da Croisette. Um ano depois, ‘‘Os Incompreendidos’’ se tornou o concorrente oficial da França e aqui ele conquistou o Grand Prix para melhor direção. Então com 27 anos, Truffaut chegava para ficar. O jovem diretor a quem Claude Autant-Lara, da velha guarda, chamara ‘‘o jovem vagabundo do jornalismo’’. E com ele chegava também uma saudável visão iconoclasta dos filmes, cujos efeitos acabaram influenciando a carreira de jovens cineastas - na Itália (Bertolucci, Bellocchio), Suíça (Alain Tanner, Claude Goretta), Alemanha (Fassbinder, Herzog, Wenders), e nos Estados Unidos, algumas gerações de estudantes malucos por cinema, entre eles Scorsese, Coppola, De Palma, Spielberg e até George Lucas. Não o de ‘‘Star Wars’’, mas com certeza o de ‘‘American Graffitti’’ .ReproduçãoFrançois Truffaut: prêmio de melhor diretor em Cannes em 1959 por ‘‘Os Incompreendidos’’Carlos Eduardo Lourenço Jorge
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