Ele escreveu que os homens precisam criar mais laços entre si e que o essencial é invisível aos olhos. Mais do que piloto de guerra, humanista exigente e poeta universal, Antoine de Saint-Exupéry foi um verdadeiro mito. Ele completaria este ano 100 anos e, assim como a França, seu país natal, o mundo inteiro rende homenagens ao pai do ‘‘Pequeno Príncipe’’. Paralelamente, a imprensa européia volta a especular sobre seu desaparecimento em julho de 1944: foi um acidente aéreo ou suicídio?
Esse grande príncipe amava pilotar e como sua vida eram os aviões, esse tema aparece muito em seus livros. Isso pode parecer simples, mas foi justamente o que lhe trouxe mais dúvidas durante sua carreira. As críticas vinham dos dois lados: o meio literário questionava a qualidade de seus livros e se queixava da concorrência de alguém que escrevia com as mãos sujas de graxa. Os colegas pilotos criticavam a divulgação de fatos do cotidiano profissional e perguntavam-se, enciumados, porque ele continuava pilotando se fazia tanto sucesso com as letras.
A cada novo livro Saint-Exupéry alcançava mais e mais sucesso, ganhando diversos prêmios literários na Europa e Estados Unidos. Primeiro veio ‘‘Correio do Sul’’, em 1929, depois ‘‘Vôo Noturno’’ (1931), ‘‘Terra dos Homens’’(1939) e ‘‘Escritos de Guerra’’ (1942), entre outros (Editora Nova Fronteira). Com uma profunda sensibilidade em relação ao ser humano, ele descreve nesses livros as experiências como piloto no deserto ou nas montanhas geladas; seus acidentes, a cumplicidade entre os pilotos; a responsabilidade na entrega da correspondência, as terras e povos distantes.
‘‘Nós somos solidários, trazidos a um mesmo planeta, peças do mesmo navio. Se por um lado é bom as civilizações se aporem para criar coisas novas, por outro é monstruoso que elas se devorem entre si’’, escreveu em ‘‘Terra dos Homens’’. Em centenas de cartas, boa parte escritas à sua mãe, Marie, com quem tinha uma relação de amizade e confiança, ele abria seu coração e contava suas experiências, muitas delas retratadas tempos depois em livros. Para Exupéry, a verdadeira amizade vinha acima de todas as coisas.
Nos meses que precederam seu desaparecimento, em 31 de julho de 1944, quando em missão de reconhecimento a bordo de um Lightning P 38, ele se mostrava estranho. Estava triste por motivos profissionais, angustiado com o destino e a política de seu país, enfraquecido fisicamente devido às sequelas de seus diversos acidentes, hipocondríaco e solitário, pois todos os seus melhores amigos haviam morrido em acidentes aéreos. ‘‘Sinto que não tenho mais nenhum amigo. Não tenho um só camarada a quem eu pudesse dizer ‘tu te lembras disso?’. Eu acreditava que esse tipo de coisa acontecesse somente com as pessoas velhas, que vão semeando pelo caminho todos os seus amigos...’’.
Seus escritos pessimistas têm levado muitos jornalistas e estudiosos europeus a afirmarem que ele se suicidou. ‘‘Torna-se cada vez mais difícil de existir’’ ou ainda ‘‘se eu fosse morto em guerra, não me faria a menor diferença’’, são alguns exemplos. Recentemente uma matéria de seis páginas da revista ‘‘Le Figaro Magazine’’, de Paris, publicou, entre outras coisas, que ‘‘o pessimismo em relação à evolução do mundo, mania de perseguição e hipocondria eram sintomas claros de depressão...’’.‘‘Decidiu ele, então, não mais viver?’’.
Para a sobrinha-neta de Saint-Exupéry, a historiadora e conferencista Nathalie des ValliSres, tudo não passa de especulação. ‘‘Eles se baseiam em seus últimos escritos, mas esquecem que durante toda sua vida Exupéry sempre escreveu cartas tristes e questionadoras em relação à humanidade e a ele mesmo. Além disso, era super responsável em seu trabalho e não iria abandonar uma missão pela metade’’, afirma Nathalie.
Entre as diversas hipóteses em torno de seu desaparecimento está também a possibilidade de ter sido abatido pela força aérea alemã, mas nos arquivos alemães (ou mesmo das forças aliadas) não há nenhum sinal disso. Um acidente mecânico de seu Lightning pode ter ocorrido, mas era uma unanimidade entre os companheiros de esquadrilha que ‘‘Saint-Exupéry não iria deixar de existir em razão de uma simples pane’’. Justamente ele, que sobreviveu a três graves acidentes, inclusive em pleno deserto do Saara.
Com a idade de 44 anos, teoricamente o piloto/escritor não poderia mais voar em missões de guerra e já não tinha condições físicas e psicológicas de pilotar o ‘‘monstro’’ que era o P 38 na época. Além das sequelas de seus acidentes, Exupéry sofria de reumatismo, enxaqueca, gota nos pés e consumia mais oxigênio do que os outros pilotos, o que reduzia sua autonomia de vôo. Contudo, não se pode afirmar que isso tenha sido determinante em sua morte.
Por mais de 50 anos centenas de pessoas, entre historiadores, pilotos, mergulhadores, escritores, fotógrafos, militares ou jornalistas se esforçaram para decifrar esse enigma, mas seu avião não foi jamais encontrado. Ele partiu da Córsega para uma missão de reconhecimento idêntica a muitas outras que fazia regularmente para fazer fotografias e pode ter caído no Mar Mediterrâneo, no litoral sul, ao redor de Marselha, ou mesmo nos Alpes ou no vale do Rhône.
Distante de toda esta polêmica, a Fundação Antoine de Saint-Exupéry (http://www.saint-exupery.org/) tem trabalhado arduamente para promover as idéias desse homem encantador e misterioso, desenvolvendo conferências e exposições. A idéia da Fundação, segundo Nathalie, é criar um belo espaço para eventos e estudos no castelo de Saint Maurice de Remens, no município de Lyon, onde Exupéry passou toda sua infância e adolescência. O projeto, no entanto, está emperrado há vários anos na prefeitura da cidade por motivos políticos e burocráticos.

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