No conto ''O Espelho'', do livro ''Primeiras Estórias'', o narrador em primeira pessoa dialoga com o leitor e o convida a ter contato com uma aventura cheia de mistério. No fim do primeiro parágrafo, afirma: ''Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.'' Milagre, palavra latina, significa prodígio, coisa maravilhosa e extraordinária. Não dá para pensar a obra de João Guimarães Rosa, cujo centenário de nascimento foi comemorado no último dia 27, ignorando o fato de que sua produção literária é desencadeada pela face fantástica (ou mitológica) da realidade, sempre a partir do sertão de Minas Gerais.
Mas o sertão está em toda parte. Esse mundo está dentro e fora do homem, ensinou o escritor nascido em Cordisburgo, no norte de Minas. Essa concepção é fundamental em sua obra, resultado da assimilação e transfiguração de duas vertentes da literatura brasileira da primeira metade do século passado: regionalismo e espiritualismo. A paisagem do sertão se tornou tão importante como elemento narrativo quanto a investigação subjetiva dos personagens.
Rosa mostrou que o jagunço, mesmo sem saber ler, também se dedicava a especulações metafísicas, em meio à violência produzida pela ordem política e social injusta.
Essa assimilação resultou em algo inédito na literatura nacional, segundo Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores especialistas brasileiras na obra rosiana. Ele sintetizou - e superou - duas vertentes contrárias. Ao valorizar o apuro formal, o experimentalismo linguístico, o contato com a literatura universal e a criação de uma prosa como quem escreve poesia, Rosa fez a expressão pela literatura, no País, avançar ao mais alto grau.
''Sua maior contribuição é, sem dúvida, a renovação e o enriquecimento da língua literária'', afirma Walnice. ''Nenhum outro autor brasileiro alcançou esse resultado, nem em poesia, nem em prosa, nem em dramaturgia, nem em nada.''
Embora inevitavelmente associado a uma região brasileira, o autor de ''Grande Sertão: Veredas'' se fez universal, característica nascida na erudição tanto literária quanto poliglota, segundo Walnice. O que surpreende na ficção de Rosa é a capacidade de reproduzir misteriosos processos de criação da língua, como se o escritor estivesse simultaneamente visitando o começo e o futuro da mais alta literatura.
Brincando de imaginar
O médico e diplomata João Guimarães Rosa (1908-1967) era um produtivo criador de enredos, personagens e palavras. Sua imaginação ficcional, sempre pronta a se revestir de uma aura mágica, assombrou a literatura brasileira no século passado. Professora de literatura na USP, Walnice não esconde o fascínio que a erudição universal, a inovação linguística e o gosto de Rosa pelo mistério exercem sobre ela.
A respeito de ''A Terceira Margem do Rio'', um dos contos rosianos mais célebres, ela afirma: ''Para escrever a respeito dessa estória, seria necessária uma mão iluminada como a de Guimarães Rosa.'' Essa mão lutava contra a escrita de lugares-comuns: brincava com as palavras, estava a serviço do espanto de que elas são capazes quando se descobrem os seus poderes. Às vezes, Rosa ''escreve como quem está em estado de graça''.
A intensa admiração pelo literato mineiro, no entanto, não é limite para Walnice pensar, com rigor e vasto arsenal teórico, a obra daquele que proporcionou um salto evolutivo à língua literária no Brasil. Seu livro mais recente, ''Mínima Mímica'' (Companhia das Letras, 352 págs., R$ 53), prova essa percepção.
Nesse conjunto de ensaios, a estudiosa utiliza variadas abordagens, da psicanálise e filologia à mitografia e história. Dividido em três partes, ''Mínima Mímica'' contempla livros diversos de Rosa, os contos de ''Primeiras Estórias'', o extenso romance ''Grande Sertão: Veredas'' e as narrativas minimalistas de ''Tutaméia - Terceiras Estórias''.
Analisam-se não só os experimentos linguísticos, em que Guimarães Rosa fundia sufixos de línguas diferentes, criando expressivos neologismos, mas o gosto por culturas longínquas no tempo e no espaço.
O texto que dá título ao livro trata do conto ''Orientação, de Tutaméia''. Walnice elabora longa introdução sobre as imigrações ocorridas no Brasil a partir da proibição do trabalho escravo, no fim do século 19. Aponta para a curiosa ausência, no País, de povos migradores como os chineses, os gregos e os indianos, que se destacam ''por sua visibilidade nos mais remotos cantos do globo''.
Por isso, soa raro, talvez esquisito, segundo Walnice, encontrar um personagem vindo da China em ''Orientação''. ''O que teria ido fazer um chinês no inóspito sertão?'', ela indaga. A resposta começa pela seguinte noção: o sertão é o ponto de partida e de chegada da ficção rosiana. O mundo todo pode caber nesse espaço.
Ali surge não só o chinês, mas o japonês, o índio, o cigano. ''Guimarães Rosa é atento à diferença, que aprecia e na qual se rejubila, diferença que para ele se flagra, sobretudo, na linguagem - de que era grande observador e experimentador.'' ''Orientação'' apresenta a história de Yao Tsing-Lao, o Kim, e Rita Rôla. Em outras palavras, é a narrativa de uma ''estória de amor'' entre um chinês, a civilização milenar, e uma sertaneja, uma incivilizada. Walnice questiona se o desentendimento entre ambos, provocando o fim do romance e a partida de Kim, se deve ao excesso de diferença, fator de atração num primeiro momento. Rita lamenta o fato de não ter tido um filho, a idéia de uma síntese provada impossível. Walnice afirma que, no começo do romance, os olhos idealizadores de Kim criaram uma nova mulher. A tal ponto que os outros vêem também as mudanças: ''A gente achava-a de melhor parecer, senão formosura. (...) No que o chino imprimira mágica - vital, à viva vista: ela um
angu grosso em fôrma de pudim.''
Essa mudança parte do interior, algo que se internaliza no sujeito e provoca a mudança, base das imagens criadas no romance ''Grande Sertão: Veredas'', exemplo apontado por Walnice. No fim de ''Orientação'', as expectativas são contrariadas. O que parecia ser uma assimilação de Kim à cultura sertaneja se torna a desorientação de Rita, que indaga onde fica a terra do amante sumido. Segundo a autora de ''Mínima Mímica'', esse conto é uma ''fábula de aculturação às avessas''.
O processo literário rosiano se modela no gosto pelas diferenças de diversas ordens: linguísticas, culturais, religiosas, etc. ''As contribuições de várias línguas e de outros autores da literatura universal estão condensadas na obra de Guimarães Rosa, que não gostava de sair por aí contando suas leituras'', diz Walnice. Esse patrimônio cultural reunido num só indivíduo se prestava a explorar a idéia da vida como uma travessia. A literatura de Guimarães Rosa é indissociável do susto provocado pelo absurdo de que parece ser composto o labirinto da existência.

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