Orwell e os deserdados de Wigan Pier
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de março de 2010
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Mais conhecido pelo distópico 1984 (escrito em 1949) e pelo satírico A Revolução dos Bichos (1945), ambos manifestos ficcionais contra regimes totalitários, o escritor inglês George Orwell, desafiado pelo escritor e editor inglês socialista Victor Gollancz (1893-1967), passou dois meses, em 1936, nos condados de Lancashire e Yorkshire, visitando lugares como Wigan, Barnsley e Sheffield. Antigo reduto dos celtas, essas três cidades inglesas, durante a Revolução Industrial, conheceram uma dramática expansão - e consequentemente, um aumento significativo no número de bebês, filhos de mineiros esfomeados cuja condição miserável é descrita em A Caminho de Wigan Pier, lançamento da Companhia das Letras.
O livro, originalmente publicado em 1937, é um relato honesto das condições de vida da classe trabalhadora do Norte da Inglaterra. Honesto e crítico. O editor não gostou da franqueza usada pelo escritor ao descrever o cheiro da classe trabalhadora. Incomodou-o a observação de Orwell - cujo nariz afilado era extremamente sensível -, de que os operários cheiravam mal. Elas revelam um desejo incontido de se afastar o mais rapidamente possível de casas onde as bacias cheias de água suja concorriam com pratos de comida empilhados na pia e penicos cheios no meio da sala. Culpa dos próprios moradores, sentenciou Orwell, mais uma vez, para escândalo de Gollancz, que ainda teve de suportar uma crítica ao socialismo de classe média na segunda parte do livro. Nela, seu autor deixa os deserdados para atacar intelectuais burgueses que, segundo ele, estavam fazendo o socialismo retroceder.
Na parte final de A Caminho de Wigan Pier, Orwell faz o papel do advogado do diabo, avisando que está argumentando a favor do socialismo, não contra. Muito cedo, Orwell, um ''esnobezinho odioso'' aos 14 anos, descobriu que ''o problema das classes sociais não se resolve fazendo amizade com mendigos''. Nem com mineiros do Norte da Inglaterra. Foi para ele uma experiência traumática conviver com a imundície das casas dos trabalhadores nas minas de carvão de Wigan e os dentes podres dos operários de Lancashire - e, ainda mais traumático, beber de uma garrafa depois que cem deles passaram a boca pelo gargalo.
Orwell teve dificuldades para se livrar dos preconceitos de sua classe social. Cedo concluiu que sua vocação para cão de guarda do imperialismo britânico era nula. ''Talvez esse negócio de quebrar as barreiras de classe'', observa Orwell, ''não seja tão simples assim''. ''O socialismo'', já dizia o escritor em 1936, ''não tem mais cheiro de revolução. Tem cheiro de excentricidade''.
SERVIÇO
■ A Caminho de Wigan Pier
Autor - George Orwell
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Isa Mara Lando
Quanto - R$ 46 (288 págs.)


