DivulgaçãoOrson Welles em ação em ‘‘Cidadão Kane’’ (Citizen Kane - 1941, EUA), filme que fez aos 25 anos de idadeORSON WELLES
Lélio Sotto Maior Junior
Orson Welles cometeu a heresia das heresias ou o atrevimento dos atrevimentos, a proposta tão insolente quanto insustentável de um ‘‘cinema-de-arte’’ americano feito dentro da indústria e ao mesmo tempo contra ela.
Se bem que na década de 30, cineastas como Sternberg e Stroheim já tivessem feito filmes que iam em frontal desacordo ou conflito com a indústria de cinema americano, nenhum cineasta havia formulado uma revolução tão grande quanto a que propôs o seu ‘‘Cidadão Kane’’.
‘‘Kane’’ pertence ao cinema americano como um divisor de águas, a ponto de se poder falar de ‘‘antes de Kane’’ e ‘‘depois de Kane’’, dois momentos historicamente distintos e inconfundíveis do cinema americano.
A prova disso é que o cineasta não conseguiu superar seu ‘‘record’’ incial, apesar de ter realizado filmes tão sugestivos e complexos quanto ‘‘soberba’’, ‘‘A Dama de Xangai’’ e ‘‘A Marca da Maldade’’.
Só mesmo no início dos 60, ao realizar uma alucinante e alucinatória versão da obra de Franz Kafka, ‘‘O Processo’’, Welles conseguiu se recuperar do estigma ou da força quase sinistra de seu ‘‘Kane’’ inicial.
Porque, na verdade, mais do que uma obra-prima, ‘‘Cidadão Kane’’ representou quase que uma maldição na carreira do cineasta americano, que nunca mais conseguiu estabelecer o mesmo nível de realização artística proposto no seu filme de estréia. Com ‘‘O Processo’’, Welles, que é um inventor de primeira, deu o salto qualitativo necessário que lhe permitiu, na metade dos anos 70, a realizar outro marco definitivo na vanguarda fílmica, ‘‘Verdades e Mentiras’’, talvez a maior autocrítica já realizada por um cineasta do seu próprio cinema e formulação última do processo engendrado por Fellini em ‘‘8 e 1/2’’, Godard em ‘‘Duas ou Três Coisas’’ ou por Truffaut em ‘‘A Noite Americana’’.

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