São Paulo, 25 (AE) - Você ouve uma sinfonia de Beethoven (aliás, a Sétima) com a Orquestra do Século 18, regida pelo violinista Thomas Zehetmayr, que está se apresentando no Cultura Artística, e pensa: "Por que eles se intitulam autênticos? Será que Furtwaengler, Karajan, Klemperer, etc, estavam errados?" Dificilmente. Em seguida, vem outra impressão: "Será, então, que essa coisa toda de histórico é só modismo para vender discos?" Também não sejamos radicais. A sensação final que se tem é de que o grupo de época é apenas uma das versões possíveis e, sem dúvida, não a definitiva
São grandes instrumentistas, envolvidos com o que tocam. É notável como a arquitetura de Mozart, Haydn e Beethoven aparece com uma transparência cristalina. Percebe-se cada célula temática, motivo e variação como se estivéssemos diante duma daquelas partituras didáticas, com setas avisando para onde dirigir a audição. Impossível, também, não notar cada divisão de naipes e a individualidade dos instrumentos. O fraseado é bem destacado, dando um impulso rítmico curioso a velhos conhecidos (sem sarcasmos, o "Allegreto da Sétima" ganhou um gingado quase brasileiro).
Há um grande charme na integração entre sopros (estava lá o nosso Ricardo Kanji como 2ª flauta), metais e as cordas. E demora um bocado até os ouvidos atuais ganharem a sensibilidade das orelhas do século 18, uma vez que se rende ao passadismo, é uma delícia. Como no caso da "Sinfonia Concertante", de Mozart
ao mesmo tempo, um bom exemplo das virtudes e das frivolidades de tais grupos de época, pois, ao contrário da "La Passione", de Haydn, quase não se pode notar diferenças entre versões atuais e a histórica, do grupo, dessa obra. Prova de que a genialidade mozartiana dispensa escarafunchadas em arquivos e sonoridades ondulantes de cópias de velhos instrumentos. Inegável a beleza dos diálogos entre violino e viola (sensacionais nas cadências) e a fluência sonora dos históricos.
Ainda assim, no todo, para melhor ou pior, o cérebro venceu os sentidos. Em especial, na sinfonia de Beethoven. Limites das tais versões autênticas, que, embora se pretendam absolutas, são apenas uma das muitas facetas possíveis. Mais, há uma sensação de artificialismo no ar, de excesso de polidez, de beleza construída compasso a compasso. Vá, ouça, divirta-se com a beleza técnica do grupo, mas não deixe de se perguntar se não é lá, algo anacrônico e vicioso, encantar-se tanto com a Orquestra do Século 18 às portas do século 21.
Serviço - Orquestra do Século 18. Regente e solista Thomas Zehetmair. No programa Haydn, Mozart, Beethoven. Quinta-feira, às 21h. R$ 80,00 a 150,00. Teatro Cultura Artística, na Rua Nestor Pestana, 196, em São Paulo. Fone (011) 258-3616.

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