São paulo, 08 (AE) - "Os Olhares de Tóquio", de Jean-Pierre Limosin, pode não ser o melhor filme do mundo. Mas ninguém, em sã consciência, pode negar-lhe o atenuante da originalidade. Certo, a modernidade urbanóide da capital japonesa já não constitui mais novidade no mundo do cinema. Mas poucas vezes ela tem sido utilizada de maneira tão orgânica, tão integrada, quando nesta história do misterioso justiceiro solitário que usa óculos para atacar suas vítimas e por isso é chamado de "quatro olhos".
K é o nome do garoto e, talvez, não por acaso Limosin use a mesma letra utilizada por Franz Kafka para o protagonista de "O Processo". Se a engrenagem judiciária transforma o personagem de Kafka em marionete, aqui é aparentemente a forma de funcionamento da sociedade que deixa o anti-herói de Limosin perdido. Ele age no interior de uma estrutura que não entende. E
para tentar corrigi-la, busca a justiça com as próprias mãos, tornando-se assim um fora-da-lei. É, em poucas palavras, um rebelde sem causa, como tantos já retratados pelo cinema, a partir do personagem de James Dean.
A evolução da história, proposta pelo diretor, baseia-se em outro monumento cinematográfico, Acossado, de Jean-Luc Godard. K conhece uma jovem, Hinano, irmã do policial que justamente está perseguindo o justiceiro de óculos. Os dois jovens interessam-se um pelo outro. Amor de gente moça, feito de andanças noturnas pelos ambientes mais estranhos de Tóquio, um pouco de sexo, sonhos e videotape. Rapaz de sua geração, K é viciado em vídeo e filmadoras. Registra tudo o que vê e faz.
Como em "Acossado", é a velocidade do amor urgente que dá energia ao filme. Esse efeito não decorre da história, da trama propriamente dita, mas na maneira como é filmada e, sobretudo, montada. Essa sensação de estar "sem fôlego", à bout de souffle, como no título original de Godard, é o que há de melhor em "Os Olhares de Tóquio".
Limosin é também hábil em registrar o cotidiano da capital japonesa. Não é exagero dizer que quase qualquer tipo de cinema tem um pé no documental. Enraíza-se no ambiente que serve como pano de fundo para a história que conta e, quando é eficiente, faz com que esse cenário passe a ser parte integrante da trama. Assim, o cinema cumpre uma de suas mais nobres funções
a de ser uma janela para o mundo, segundo a crítica Sylvie Pierre. Tóquio, suas ruas, mas também os seus becos e hábitos tornam-se familiares para o espectador atento. Mais que pelo turismo, é pelo diálogo entre seus produtos culturais que uma civilização conhece e interage com a outra.
"Os Olhares de Tóquio" conta ainda com uma curiosidade extra para aqueles que têm seguido o moderno cinema japonês: a presença no elenco do ator e cineasta Takeshi Kitano, em um pequeno papel. Ele faz o pai de K, uma presença taciturna, que surge lá pelo fim do filme e imprime um grau ainda maior de estranheza à história.
Esse belo filme, muito bem fotografado, apresenta alguns problemas de estruturação do roteiro, que, se não chegam a derrubá-lo completamente, deixam a ação meio frouxa aqui e ali. Essas oscilações de ritmo e alguns tempos mortos são recuperados na parte final, quando o interesse volta a crescer e a empatia com os personagens ressurge. Feitas as contas, entre prós e contras, "Os Olhares de Tóquio" aparece em nível bem superior ao que normalmente se apresenta nos cinemas. (L.Z.O.)

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