Foz do Iguaçu - Barulho, conversas inacabadas com desconhecidos, empurra-empurra, falta de troco e olhares indiscretos. Estes são elementos comuns nos ônibus da maioria das cidades do Brasil. Mas em Foz do Iguaçu o meio de locomoção ganhou, recentemente, um ingrediente a mais ao dar carona para um gênero literário apreciado por poucos no cotidiano da população brasileira.
Ao embarcar em uma das lotações do sistema, os iguaçuenses, agora, têm contato com poesia, produzida em uma embalagem de fácil leitura e formato pouco usual. É o projeto ''Tirando de Letra'', do poeta Carlos Luz, que ingressou no transporte coletivo com objetivo de popularizar o estilo e desmistificar a imagem da poesia ser exclusivamente lírica.
Atualmente, as propagandas colocadas naquele vidro atrás do assento do motorista dividem espaço com cartazes mostrando o trabalho de Luz. Cada cartaz tem um poema em letras garrafais, acompanhado de uma ilustração da jornalista Daniela Valiente e grafismos, que tornam o conjunto atraente.
O escritor selecionou 20 poemas dos 131 publicados em seu livro ''Poesia Mínima'' (Travessa dos Editores). Eles passeiam por temas próximos do cidadão comum como política, situações familiares, erotismo, a boêmia e o lirismo, sempre numa forma singular (leia texto nesta página).
Conforme Luz, a meta é alcançar a população como um todo, atingindo diferentes classes sociais e um público diferenciado, como trabalhadores e estudantes. ''Aproximar a poesia do leitor é uma forma de democratizar a arte, e esse é um dos nossos objetivos'', explica Luz.
Esse casamento parece render frutos. A Folha percorreu uma das linhas de ônibus em Foz ontem, uma semana depois dos poemas serem fixados nos mais de 100 ônibus da cidade. É exagero afirmar ser impossível circular nas lotações sem perceber a obra, mas é possível garantir que a boa parte dos 90 mil usuários do sistema já leu ao menos um dos poemas.
Para o frentista Osmar da Silva Fernandes, 27, a leitura é um momento de reflexão entre o caminho de casa ao posto de combustível onde trabalha, e vice-versa. ''É uma oportunidade única e maravilhosa'', comentou, frisando que os ''poemas ambulantes'' são uma fonte para outros poetas. ''Eu, por exemplo, escrevo, mas nunca tenho tempo'', confidenciou.

O frentista Osmar da Silva Fernandes gosta de ler os poemas de Carlos Luz nos cartazes atrás dos bancos dos motoristas. Um deles diz: suasecretáriaeletrônica / jáéminhaamanteplatônica, tudo escrito sem espaços entre as letras

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