ORIGINALIDADE - Cidade invisível
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de janeiro de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma fotografia é uma imagem, mas também pode ser um conceito. E é nessa definição que o artista curitibano Tom Lisboa apostou para criar as suas Polaroides (in) visíveis. Não são exatamente fotografias, mas pequenos textos e indicações que convidam as pessoas a ter a sua própria visão sobre uma cena a partir de uma empurrãozinho do artista. Pois se os olhos desacostumam a ver o ambiente com atenção e a mente está acelerada demais para permitir fixar-se num ponto, belo ou não, é possível que um pequeno bilhete fixado em um espaço inusitado ajude.
O bilhete em questão é um pedaço de papel amarelo, de dimensões muito próximas à de uma polaroide tradicional e que traz, no lugar da foto, um texto que aponta e revela características inusitadas que podem passar despercebidas. Exemplos: ''Atrás de você, do outro lado da rua, na parte inferior do prédio bege, há o registro da silhueta de uma casa que foi demolida''; ''Stefania Boneca deixou seu telefone para contato no orelhão aqui ao lado''; ''Durante o dia, os vidros jateados da Caixa Econômica transformam as pessoas dentro da agência em fotografias desfocadas''.
No ano passado, as polaroides (in) visíveis foram espalhadas por 18 pontos de Curitiba, em três praças do centro da cidade, mas agora Lisboa coloca as imagens e a localização de cada ponto na internet, para que qualquer pessoa possa imprimir, ver o local da imagem, fixá-la novamente ou simplesmente olhar a cena do jeito que o artista indicou. O projeto inusitado deu tão certo em Curitiba que ele foi convidado para fazer uma exposição semelhante em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A intervenção urbana será em outubro, mas até lá, o artista deve fazer várias visitas à cidade gaúcha para escolher os pontos e a descrição deles.
Se você acha que o trabalho não pode ser enquadrado como fotografia, reclame com os jurados do Prêmio Porto Seguro, um dos prêmios mais importantes do segmento no Brasil. Com o trabalho, Lisboa, que também é fotógrafo, conquistou o prêmio na categoria ''Pesquisa contemporânea''. ''Eu tive a grata surpresa de ver outros fotógrafos avaliando o trabalho como uma fotografia'', conta. Ele explica que além de descrever o enquadramento e ''guiar'' a visão de quem lê os textos, aposta na vulnerabilidade das polaroides como uma qualidade. ''Eu queria criar um trabalho que eu não tivesse apego. Eu espalhei várias polaroides. Elas eram roubadas, caiam, se perdiam e eu colocava de novo, mas era para acontecer isso mesmo. Eu soube de gente que colecionou os textos'', diverte-se.
Por isso, a mostra teve um começo, mas não tem um fim. As polaroides que se perderam podem ser repostas agora por quem visitar o site do artista (www.sintonizado.com/polaroides), que tem a descrição do enquadramento da cena, além de fotografia que mostra a localização exata onde a polaroide deve ser colocada. Mas não a imagem pronta descrita no papel. ''Uma característica desse trabalho é que a pessoa faz a sua imagem, não eu. Minha intenção não é mostrar a imagem, mas deixar a surpresa para o espectador''.
O artista pretende ampliar o projeto para os bairros de Curitiba, mas ainda não tem data para começar. Por enquanto, ele se concentra em projetos paralelos que pretende, inclusive, levar para Alemanha durante a Copa do Mundo. Tom Lisboa é Mestre em Comunicação e Linguagens, pela Universidade Tuiuti do Paraná, e Bacharel em Informática, pela Universidade Federal do Paraná. Sua produção artística começou em 1996, com pintura, mas a partir de 2000, passou a desenvolver projetos pessoais apenas na área de fotografia. Paralelamente, ministra aulas de formação de platéia crítica em cinema.
Serviço:
- As Polaroides (in) visíveis podem ser acessadas no endereço eletrônico www.sintomnizado.com.br/polaroides


