ORGULHO ANCESTRAL
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de julho de 2001
Rodrigo Teixeira TV Press 
Norton Nascimento sempre teve o desejo de interpretar um escravo na tevê. E é impossível não perceber a emoção do ator de 39 anos ao falar de Zacarias, seu papel em A Padroeira. Principalmente porque o personagem não é fictício. Zacarias tem relação com o segundo milagre de Nossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil, cuja história serve como pano de fundo na trama de Walcyr Carrasco. A caminho de um castigo, o escravo pára para orar diante da santa e seus grilhões se rompem. As correntes do verdadeiro Zacarias estão expostas na Basílica de Aparecida do Norte, no Vale do Paraíba, em São Paulo, e Norton obteve a permissão dos religiosos para tocá-los. Impressionado com a trajetória do escravo, o ator de Belém do Pará se diz orgulhoso por contar parte da vida de Zacarias. Me sinto feliz por ajudar a trazer à tona uma personalidade tão importante e desconhecida para a comunidade negra, avalia.
Para ficar à vontade no papel, o ator passou dos 107 para os 100 quilos. Estava gordinho demais para viver o Zacarias. Agora estou sarado, exagera, do alto de seus 1,92 m. O personagem representa também a volta de Norton às novelas. A última tinha sido A Próxima Vítima, de 1995, escrita por Silvio de Abreu. Antes, havia feito Fera Ferida e o personagem bissexual Chicão, na minissérie Agosto na verdade, o primeiro papel de destaque. Virar artista foi novidade. Pensei que iria morrer de infarto em uma quadra de esporte, confessa o ex-jogador de basquete.
Antes de Zacarias, Norton já havia vivido papéis históricos. Um deles foi o músico Calado, na minissérie Chiquinha Gonzaga, um dos inventores do choro. Também protagonizou a minissérie Zumbi dos Palmares, dirigida por Walter Avancini na TVE, em 1997. Mas apesar de ter protagonizado tanto Malhação por alguns meses e quanto um episódio do Brava Gente, Norton acredita que vai demorar ainda para se ver um negro no papel principal de uma novela da Globo. Enquanto os negros não forem encarados como consumidores, isso não vai acontecer, decreta o ator.
Existe diferença entre interpretar um tipo fictício e um personagem histórico, como o Zacarias?
Viver uma pessoa que existiu é mais emocionante. Especialmente este, que é ligado à negritude. Sendo eu uma pessoa da raça negra e trabalhando na Globo, sei que o papel vai ter repercussão nacional. Isso é importante para os negros. Principalmente para se ter noção do universo dos nossos heróis. Os negros heróis do Brasil são colocados de forma estranha. Zumbi dos Palmares não é tido como herói. E confesso que nem conhecia o Zacarias. Assim como o Calado, de Chiquinha Gonzaga, um dos inventores do choro. E olha que sou músico. Para mim, o choro tinha vindo de Pixinguinha. Então, a comunidade negra não tem consciência do seu passado devido à falta de educação. Como ator, é um privilégio poder ajudar neste sentido.
Como foi seu processo de composição do personagem?
Primeira coisa que faço é pedir permissão para a energia do personagem. Quero poder interpretá-lo da forma mais digna possível. Na verdade, não há informações sobre o Zacarias. Eu pedi para a Globo me mandar algo, mas nem a própria Igreja sabe muito. Fui a Aparecida do Norte e os religiosos me deixaram até pegar os grilhões. Me passou uma energia forte. Também fiquei pensando em como deveria ser cruel ter de carregar aquilo no corpo. Os grilhões são pesadíssimos. Perguntei ao padre o que tinha acontecido com o Zacarias depois do milagre. Ninguém sabe. Na novela, ele foi separado na África da família dele. Mas até agora não se sabe se ele formou família no Brasil. Quem sabe aparece algum descendente durante a novela?
Você emagreceu e criou uma voz mais grave e baixa para o personagem. Por quê?
Estamos construindo o Zacarias através de dados da escravatura. Então, a voz dele é abafada em função desta pesquisa. Um negro separado da família já provoca o que os negros chamam de banzo, que é a tristeza. A opressão no navio negreiro também fazia com que o escravo não falasse alto, senão apanhava. Além disso, o negro sofria muito: bebia, comia e defecava embaixo do navio, quando chegava ao Brasil, tinha de aprender português em dois dias para não ir para o tronco. O autor da novela também escreveu na sinopse que ele era um negro de olhar profundo, grande e forte. Por isso, perdi sete quilos e depois ganhei três em músculo. Confesso que estava meio gordinho, mas agora ganhei o físico forte que o Zacarias necessita. Pode ser até que ele se torne um herói na história. Ou não. Mas de uma coisa tenho certeza: é um dos personagens mais emocionantes da minha carreira.
O fato de você reviver as situações cruéis que os escravos passavam tem a ver com isso?
Sem dúvida. Mas também por mostrar para os brasileiros como se lutou para construir o país que a gente tem hoje. Os negros, principalmente, tinham um trabalho físico mesmo. Inclusive pesquisei o livro Bantos e Malês, do Ney Lopes. Descobri que os brancos aprenderam muita coisa de plantação e da parte de trabalhar com ferro com os negros, que já dominavam estas técnicas. Na verdade, fui buscar referências de quando o negro começou a sair da África e se espalhar pelo mundo. E obtive dados interessantes sobre a inteligência e a sabedoria da raça. Mas na época o negro era pior tratado que um bicho. Também se criou alguns mitos no Brasil. Os jesuítas são colocados como heróis, mas manipulavam negros e índios. O Zacarias não aceita ser batizado na novela, porque não acredita em um Deus que deixa ele ser escravizado. Fico chocado com tanta desumanidade com uma raça tão sábia. O pior é o medo que as pessoas tinham e têm até hoje da dominação do negro na sociedade.
O fato de Nossa Senhora de Aparecida ser negra é controverso?
Olha, a santa existe no mundo inteiro, cada lugar com uma imagem diferente. No México, por exemplo, a Nossa Senhora tem as feições dos índios mexicanos, porque vem sempre para dar força para as pessoas mais pobres. No caso do Brasil, quando a imagem apareceu, tinha toda a questão da escravatura e surgiu primeiro para pescadores, que eram pobres. Aí, os historiadores arrumaram um monte de desculpas para o fato de ela ser negra. Dizem que era porque a imagem estava no lodo ou porque acenderam velas no altar. Mas a Divindade não quer saber. Ela é negra e não tem como mudar.
Quando se fala de um ator negro com perfil de galã se pensa logo em você. Você sente falta de uma maior gama de atores negros ao seu lado?
Sinto. Existem até algumas atrizes, como a Isabel Fillardis, Camila Pitanga, Taís Araújo... Mas atores são muito poucos. O problema é que o conceito de beleza no Brasil é europeu. Tanto que as propagandas colocam mulheres magras, sem peito ou bunda, enquanto a brasileira é popozuda. O conceito de homem também é o garoto sarado.
A Globo também contribui para fixar este padrão de beleza...
Não acho que seja a Globo, mas a sociedade. Porque se a sociedade desligar a televisão, eles se sentirão pressionados a mudar. Protagonizei um dos primeiros Brava Gente e, até há algumas semanas, tinha sido o de maior Ibope. Então é a prova de que um negro como protagonista também pode dar certo. Aliás, formei casal com a Juliana Paes e adorei. Além de linda, tem um futuro brilhante como atriz. Daria para eu e ela fazermos par romântico em uma novela sem problemas. Inclusive como protagonistas. Mas isto deve demorar a acontecer numa novela.
Por quê?
Porque quando a emissora resolve investir em alguém faz para dar certo. No caso de um protagonista negro, o risco é maior. Quando se arrisca com um ator branco e dá errado, é normal. Mas não vamos confundir protagonistas com bons papéis. No meu caso, sempre tive bons papéis. Na realidade, a tevê é feita como entretenimento. Pode ter coisas instrutivas, mas a Globo é uma empresa criada para ganhar dinheiro. É feita para que os investidores, que são quem pagam as novelas, tenham retorno. Então, tem de se criar um papel que ofereça ganho para estas empresas. Como muitas pessoas que comandam essas empresas são racistas, não se investe em um protagonista negro. Só que eles se esquecem do potencial de compra do negro no Brasil hoje. Daí a importância de existir em uma novela um protagonista negro dentro de um país negro como o nosso. O problema é que os próprios autores não sabem como fazer isso. Eles têm uma visão branca da negritude. Por isso sou a favor da lei que estabelece uma cota obrigatória de 25% de atores negros nos elencos de dramaturgia.
Mas impor a presença dos negros não reforça o racismo?
Não acho. Vai educar as pessoas contra o racismo. Deveria ser feita inclusive uma campanha para mostrar não só a importância do negro, mas o valor dele como consumidor. Me chamam de revoltado, mas sempre tive vontade de falar: Negros do Brasil, vamos fazer um boicote. Parem de comprar determinado produto por um mês para ver o que acontece. Na verdade, o que quero é dignidade igual para todos. Nem mais, nem menos.


