Orfeu e Eurídice é montagem inédita no Brasil
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quinta-feira, 23 de outubro de 1997
Zeca Corrêa Leite Curitiba 
A Schola Cantorum Basiliensis, a mais renomada instituição de música antiga do mundo, e o Teatro Guaíra estão juntos numa parceria inédita - a montagem de Orfeu e Eurídice, a ópera de C. W. Gluck que deu a forma definitiva ao gênero até nossos dias. A estréia acontece domingo, no Guairão, em Curitiba, com Carlos Mena (Orfeu), Beatrice Ruchti (Euridice), Lara Matteini (Amore).
Um dos orgulhos da cidade de Basiléia, na Suíça, a Schola Cantorum é famosa pelo rigor com que seleciona seus alunos. Só entram ali os de valor realmente comprovado, geralmente solistas brilhantes de nível profissional elevado, interessados nas aulas de especialização.
Os cantores de Orfeu e Eurídice que estão em Curitiba para se apresentar com elenco brasileiro, fazem parte dessa nata musical. Oportunidade única para o público ter contato com algumas das privilegiadas vozes que começam a ganhar espaço no cenário internacional. A direção cênica está a cargo de Carlos Harmuch, professor na escola suíça, e a direção musical é do maestro Osvaldo Colarusso.
Versão originalPela primeira vez esta ópera é encenada no Brasil. Ela já foi levada em forma de concerto e, fato raro em todo o mundo, será mostrada na íntegra. As aventuras e desventuras de Orfeu, na tentativa de trazer de volta à vida a amada que morreu no dia das bodas, foram escritas em três atos. Nesta concepção eles foram fundidos em dois.
A montagem segue exatamente o que pedem as partituras, e dentro de uma tendência que começa a ganhar corpo em todo o mundo, contratenores farão o papel do herói, quebrando a convenção de se colocar mezzosopranos no lugar.
A inversão dos papéis (mulheres fazendo as vezes do homem) surgiu pela falta de vozes com o registro adequado. Então, o que poderia ser uma medida temporária cristalizou-se como regra. Neste espetáculo Orfeu será vivido respectivamente por Carlos Mena, da Espanha, e Martin Oro, da Argentina. Ambos da Schola Cantorum.
ContemporaneidadeO regisseur Carlos Harmuch afirma que esta ópera é um marco na música. Foi ela a responsável pelo retorno do gênero à sua essência de teatralização, mantendo claro o jogo dramático. Quando Orfeu e Eurídice veio à cena já não havia mais nada a ser dito. Os compositores criavam árias dificílimas para os cantores exporem técnicas e virtuosismos. Era uma exposição de vaidades, nada mais.
Gluck escreveu a ópera atendendo a anseios que vinham da corrente filosófica do Iluminismo; sua produção não estava ali por acaso, mas conseguiu além do que poderia ser um mero discurso. O autor situou o herói no seu tempo, através de elementos correlatos. Harmuch, embora mantenha o clima e o cenário, tem seu pensamento voltado à leitura contemporânea. O inferno, por exemplo, traz a realidade atual dos tiros, estupros, suicídios.
Esta é uma das mais belas óperas de todos os tempos. E é com essa dimensão que queremos tratar o tema, diz o diretor. Seu entusiasmo não fica preso somente à performance do elenco. A peça é intimamente ligada a outra arte, o balé. Marta Nejm, atual diretora do Ballet Teatro Guaíra, criou a coreografia que tem peso fundamental no trabalho.
UnidadeO bailado não entra aqui como complemento ou entretenimento facilmente dissociado do espetáculo. Pelo contrário. Mantém uma unidade íntima com o todo. A concepção de Marta traz a mesma força e envolvimento, e para Carlos Harmush esse é um ponto a mais na admiração que tem por ela. Eles trabalharam juntos anteriormente na Suíça, no PlatSe, de Rameau.
Curitibano, há 12 anos integrado na vida artística suíça, Carlos Harmuch é professor de interpretação e responsável pela Opernklasse da Schola Cantorum Basiliensis. A última grande produção da qual participou foi ano passado, em Moscou, com Carmen, de Bizet. Mantém-se em cartaz e com grande sucesso ainda hoje.


