Orfeu bem brasileiro
Trilha sonora do filme de Cacá Diegues já está nas lojas e mescla preciosidades da MPB com o rap
ReproduçãoCaetano Veloso: organizou a trilha sonora assinando novas canções e temasNelson Sato
A campanha promocional do filme Orfeu surpreendeu, anteontem, a audiência da novela ‘‘das oito’’ Suave Veneno. Há uma semana da estréia nas principais cidades do País, o diretor Cacá Diegues e o cantor e ator Toni Garrido sapecaram um merchandising da nova produção ao aparecer de surpresa no bar do personagem Gato, interpretado por Nuno Leal Maia.
Na cena, Garrido chegou a falar que o disco do filme já estava nas lojas. Só faltou dar uma palhinha das três músicas que canta na tela e no CD, duas delas de autoria de Caetano Veloso, a quem coube organizar a trilha. O disco empolga, apresentando versões renovadas de maravilhas da dupla Tom-Vinícius e do autêntico samba do morro.
Difícil não se deslumbrar com o clássico ‘‘Felicidade’’, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, interpretado sem retoques pela filha de Tom, Maria Luiza Jobim, de apenas 11 anos. E o que acrescentar depois do resgate de ‘‘Cântico à Natureza (Primavera)’’, de Jamelão e Nelson Sargento, nas vozes deste último e de Zezé Motta?
ReproduçãoCD com as músicas do filme Orfeu traz sensacional participação de Maria Luiza Lontra Jobim, de 11 anos, filha de TomMas a trilha inclui outros motivos para satisfazer os apreciadores da boa MPB, ainda que contenha duvidosas fórmulas aqui e ali, como a roupagem ‘‘modernosa’’ assinalada em algumas faixas - caso, por exemplo, do trecho rap de Gabriel O Pensador incluído em ‘‘O Enredo de Orfeu’’, e no remix pasteurizado de ‘‘Só Voc꒒, este com a famigerada bateria eletrônica padrão que empesteia o pop comercial.
Produzido por Caetano em parceria com Arto Lindsay e Jaques Morelembaum, o disco é na verdade o terceiro material gravado tendo como base a peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius de Moraes em 1956 e do qual saiu um long-play em vinil de 10 polegadas. O álbum, hoje uma raridade, chegou às lojas pela Odeon na mesma época da montagem.
Desse repertório, Caetano recuperou as canções ‘‘Se Todos Fossem Iguais a Voc꒒ (cantada por ele), ‘‘Eu e o Meu Amor’’ e ‘‘Valsa de Eurídice’’. Mas Orfeu, de deus grego da lírica ao sambista preto e carioca da adaptação de Vinícius, inspirou uma nova encarnação em 1958, desta vez cinematográfica com direção do francês Marcel Camus.
O filme, como a peça, também resultou em disco. Desta relíquia, surpreendentemente ainda em catálogo, Caetano preservou a já citada ‘‘A Felicidade’’ e a não menos bela ‘‘Manhã de Carnaval’’ (de Luis Bonfá e Antônio Maria), esta interpretada na nova versão por Toni Garrido. Toni, que faz o papel principal na tela, faz bonito no CD. É uma das andorinhas solitárias no longo verão sem vozes do pop nacional. Cantando na trilha, deve arrancar sorrisos do poetinha lá no andar de cima.

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