Agência Folha
O Orbital fez um ótimo show - do Orbital. Talvez todo mundo estivesse esperando a catarse techno do Chemical Brothers, mas era o Orbital. E, como tal, os irmãos Paul e Phil Hartnoll conduziram o público da noite de sábado do Free Jazz, em São Paulo, por uma viagem de ricas tessituras que provam que música eletrônica pode (e deve) ser vista também como música, e não apenas como barulho, bate-estaca ou ferveção. Educados no bê-á-bá da cena sem rosto da cultura raver inglesa do final dos anos 80 (o nome do grupo, como se sabe, vem da rodovia em torno de Londres onde acontecia a maioria das primeiras raves), Paul e Phil tocam num palco escuro, iluminados apenas por duas lanternas em suas cabeças, para que enxerguem o equipamento, e por imagens vindas de projetores. São apenas duas silhuetas, que se mexem ativamente entre gigantescos teclados. Phil, à frente, levanta os braços, atiçando o público. O show tem muito do novo disco, ‘‘Middle of Nowhere’’, e faz boa divulgação dele. Abre com ‘‘Way Out’’, atmosférica (palavra que serve para toda a apresentação), num clima de quase tranquilidade que dominaria a noite.
Levantam o número de batidas por minuto com ‘‘Chime’’, empolgando o povo num momento histórico, como ‘‘Satan’’, de atitude rock e a guitarra do Metallica. A delicada ‘‘The Box’’ traz o momento mais bonito do show. Passeios entre o electro e o techno se completam com a criatividade dos vocais femininos, em duas faixas, e com os surpreendentes samples de Belinda Carlisle (‘‘Heaven Is a Place on Earth’’) e Jon Bon Jovi (‘‘You Give Love a Bad Name’’) em ‘‘Halcyon & On’’, homenagem à mãe da dupla, viciada no tranquilizante que dá nome à música.
A maturidade dos Hartnoll Brothers proporcionou um show para ouvir e prestar atenção. Divertiu-se mais quem entendeu isso logo e não ficou ali apenas para pular e suar a camisa. Educação eletrônica, portanto.

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