ORALIDADE - Três olhares, três exemplos de vida
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Célia Polesel<br> Reportagem Local 
Os livros de história contam, na maioria das vezes, somente a versão oficial e a vida daqueles que de alguma maneira se tornaram famosos. Mas a história dos municípios é feita por aqueles que ajudaram a construí-los e muitos desses pioneiros ainda estão vivos, mas não têm voz e vez para contar sua versão dessa história. Um projeto tenta mudar esse quadro dando a voz às pessoas que ajudaram a construir Bandeirantes (34 km a leste de Cornélio Procópio), mas não estão nos documentos oficiais.
''Bandeirantes em Três Olhares'' foi desenvolvido em oito colégios estaduais por 11 professores e contou com a participação de 200 estudantes que trabalharam durante quase três anos ouvindo as histórias de Fumiko Kimura (''vó Kimura'') imigrante japonesa, representante da técnica do bordado em tela, Miraci Francisco (''Birá Preto'') afrodescendente, mineiro, ex-candeeiro de boi, funcionário da limpeza pública da cidade e Joaquim Custódio da Silva (''Traíra'') branco, paranaense, pescador que durante décadas teve como missão a árdua tarefa de resgatar vítimas por afogamento.
Os personagens foram escolhidos porque algumas das professoras envolvidas no projeto os conheciam e sabiam um pouco de suas histórias. Um dos resultados do projeto foi que os estudantes passaram a valorizar as pessoas mais velhas de sua própria família. Janaína da Silva Aoki diz que as histórias de vida dessas pessoas servem como exemplo e lamenta que a avó já tenha falecido. ''Pena que minha avó já faleceu, mas minha mãe contou que ela foi cigana, artista de circo e costureira. Perdi de ouvir boas histórias porque não tinha paciência.''
Outro que ficou impressionado com as histórias, principalmente de Traíra, que resgata corpos dos rios foi Luiz Fernando Fabian Siqueira. ''Uma pessoa que ajuda resgatar corpos nos rios sem cobrar nada, principalmente neste mundo de ambição, deveria ser um símbolo de orgulho para Bandeirantes. Além desse trabalho, ainda refloresta a beira do rio, formando a mata ciliar que é tão importante para protegê-lo.''
Ísis Devaz Gandolfo retrata bem a importância de se valorizar a história daqueles que estão próximos.''Resgatar a memória desses personagens foi conhecer três olhares de humildade, bondade, sabedoria, paciência, simplicidade, dignidade e alegria, valores que ajudaram a construir nossa história. Fiquei muito orgulhosa de conhecê-los e a partir de hoje já não sou mais a mesma.''
Lucimara Jacometti da Silva, uma das professores envolvidas no projeto, conta que o projeto rendeu a gravação de um DVD. ''Fizemos de forma amadora para registrar os depoimentos dos três e agora tem um funcionário da prefeitura fazendo a finalização. Também queremos produzir um livro.'' A gravação foi importante também porque foram os únicos registros das histórias de Fumiko Kimura, ela morreu em 2005, primeiro ano de realização do projeto. Mas deixou seu exemplo de paciência e criticidade. Em relação à educação dizia que as mães erram ao não deixar os filhos brincarem, se sujarem e também acreditava que a televisão não era boa para as crianças.
Com a morte de vó Kimura o projeto acabou ficando com dois olhares - o do gari Birá Preto e do pescador Traíra. Birá Preto é uma daquelas figuras de livros de histórias que chama a todos de senhor e senhora e demonstra um respeito que quase não se encontra mais hoje em dia. As histórias de Birá encantaram tanto os jovens envolvidos no projeto que um deles, hoje já na faculdade, fez algumas ilustrações mostrando o trabalho de candiar boi (dirigir carro de bois) feito por Birá durante a infância em Minas Gerais. Rodrigo Ferreira compôs um rap em homenagem a Birá (confira letra nesta página).
A Folia de Reis é uma das tradições mantidas por Birá e seus familiares, relação que nasceu ainda em Minas Gerais. Na adolescência aprendeu a gostar de tocar cavaquinho e cantar os versos melodiosos da Folia de Reis. Hoje, por causa de problemas de saúde, não tem mais o grupo de Folia de Reis e lamenta que os jovens não queiram continuar a tradição. Ele ainda toca e canta alguns versos da Folia com a família, mas não acha que seja bom o que cantam: ''Não é uma coisa que presta porque teria que ter bandeira, cavaquinho, violão, sanfona, pandeiro, guitarra, tem que ter tudo, pelo menos 12 pessoas para ficar bom.''
O pai de uma das alunas envolvidas no projeto, Aparecido Ribeiro Richter, diz que o projeto foi além de um resgate da memória dos personagens, ensinou à filha valores. Para ele, a partir do momento em que os estudantes reconheceram a importância de pessoas simples eles aprenderam um pouco mais sobre cidadania, respeito ao próximo e valorização da história daqueles que construíram o município.


