O sujeito que só consegue chorar assistindo filmes ruins. O homem que só consegue olhar para céu de óculos escuros. O cara que provoca incêndios em tudo aquilo que toca. O sujeito que sente um tipo de frio que nenhum cobertor consegue apaziguar. O homem que não sabe o que fazer com aquilo que ama. O cara que não sabe o que fazer com as pedras entaladas na garganta.
Essa galeria de inusitadas figuras que trazem, invariavelmente, um profundo nó em alguma parte do destino, se espalha pelas páginas de ''Um Bom Lugar Pra Morrer'', novo livro de Mário Bortolotto. Lançado pela Atrito Art Editorial em parceria com a E-lectra & Kan Editora, a obra reúne o produção poética do dramaturgo londrinense escrita entre 1997 e 2009.
São figuras em busca de algo para encostarem a cabeça no meio de intermináveis tempestades. Figuras onde a raiva é capaz de gerar aquele tipo de confusão que deseja apenas o bom e velho aconchego. Figuras que abandonam os abrigos onde as mães mentem para seus filhos dizendo que eles serão felizes no futuro.
Uma das novidades da obra está nos poemas que trazem breves histórias em seus versos. São pequenas histórias narradas em forma de poemas que revelam, sem nenhum tipo de pudor, que a vida não é um shopping center. E que milhares de dramas se espalham pelo caminho e fazem parte daquele canto escuro onde os olhos se refugiam.
Em ''Um Bom Lugar Pra Morrer'', Bortolotto desenvolve uma escrita pautada pela oralidade, por uma narrativa desprovida de obstáculos. Como se as frases estivessem rodando num asfalto sem buracos, sem quebra-molas. Uma espécie de freeway onde o melhor que a paisagem pode revelar é a discrição da solidão.
Essa agilidade narrativa é uma das principais características da literatura do autor, seja em sua dramaturgia ou em seus textos. E a solidão se revela um dos grandes temas visitados. Não aquela solidão onde as pessoas aparecem recolhidas num canto, isoladas de tudo e de todos, mas aquela onde o isolamento assume uma forma mais sutil. Aquela solidão onde o ser humano está próximo de tudo e de todos e, mesmo assim, sente-se sozinho. Como se todas as possibilidades de encaixe, de contato estável, estivessem sempre condenadas ao fracasso.
Uma solidão que não estaria situada num fato, mas numa sensação. A sensação de não se encaixar em nada, de se sentir um estranho em todas as situações de contato. Nessa condição, as figuras que passeiam pelos versos do dramaturgo, olham para o mundo com total descrédito. E, justamente a partir desse descrédito, adquirem a capacidade de enxergar as coisas com um discernimento cru, sem firulas ou bordados.
Mário Bortolotto nasceu em Londrina em 1962 e vive em São Paulo desde 1997. Autor de dois romances, ''Mamãe Não Voltou do Supermercado'' (1996) e ''Bagana na Chuva'' (2003), escreveu mais de 60 peças teatrais. Recebeu o Prêmio Shell de ''Melhor Autor de 2000'' e o Prêmio APCA de 2000 pelo ''Conjunto da Obra''.
Em seu primeiro livro de poesia, ''Para os Inocentes que Ficaram em Casa'' (Atrito Art, 1997), Mário já percorria esse universo situado do lado da cidade onde faz mais frio. Em ''Um Bom Lugar Pra Morrer'', esse universo ganha maturidade, escancara as pedras de gelo depositadas ente os dedos e o couro do sapato. Nesse lado da cidade é possível encontrar orações silenciosas para corações desgovernados, vontades congeladas, percepções que só acontecem no escuro. Algo como aquele instante em que os olhos se fecham e a lucidez acende uma luz capaz de sussurrar alguma coisa no ouvido. Tudo para que os monstros interiores não coloquem fogo na casa.
SERVIÇO
■ Um Bom Lugar Pra Morrer
Autor - Mário Bortolotto
Editora - Atrito Art / E-lectra & Kan
Quanto - R$ 25 (90 págs.)


TODA TARDE FAÇO UMA ORAÇÃO PARA BLIND BOB

Blind Bob acordou se sentindo muito velho
indigno da gravata que não tinha
e perguntei: ''De onde vem minha poesia?''
Blind Bob se sentiu tão velho que resmungou
sentado na beirada da cama
''Preciso de uma esposa.
Alguém que cubra os meus pés durante a noite.''
Os amigos costumavam visitar Blind Bob
e traziam pra ele sopa de creme de mandioca
Bob comia sentado na poltrona
enquanto o gato se enroscava em suas pernas
Quando os amigos pararam de aparecer
Blind Bob aplicou todo o seu dinheiro num plano dentário
e passou a frequentar a churrascaria perto de sua casa
trazia embrulhado num guardanapo
pedaços de maminha para seu gato que miava feliz
Blind Bob liga a tv pra ouvir o seu programa preferido
o programa de dois caras que vivem aporrinhando um velhinho judeu
Bob costumava rir mais das piadas dos caras
Bob se sente velho pra achar a vida engraçada
Ele gostava do poeta que dizia para ouvir estrelas
e costumava pedir para sua avó contar quantas haviam no céu
mas sua avó morreu há tanto tempo
que Bob já se convenceu de que não há mais estrelas no céu
nem peixes sob os seus pés
Bob tem o coração apertado
de uma menininha abandonada pelo namorado
De um homem bomba que perdeu a fé
Então rezo por ele
Blind Bob faz de conta que não ouve
Toma o seu café e lamenta as viagens que não fez
Eu então brinco com ele:
''Não há nada pra você ver em outros lugares, Bob.''
Blind Bob não acha a menor graça
Foi num domingo de ramos que Blind Bob decidiu morrer
Eu não vou convencê-lo do contrário
Apenas faço uma oração para Blind Bob
Eu entendo e respeito
o homem que está velho demais
pra acordar toda noite sozinho
e com tanto frio
(Poema que integra Um Bom Lugar Pra Morrer de Mário Bortolotto)

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