Em meio a uma greve interminável da Universidade Estadual de Londrina, surge com um trabalho provocador a diretora Nitis Jacon com a montagem de ''As Troianas''. A tragédia da resistência feminina de Eurípedes teve a adaptação do filósofo francês Jean-Paul Sartre que deu voz aos oprimidos do oriente numa linguagem poética. A turma Cacilda Becker, primeira desova do Curso de Artes Cênicas da UEL, faz a última apresentação da peça, hoje, às 20h30, no Teatro Núcleo I.
''As Troianas'' apresenta os momentos decisivos em que os gregos fazem uma faxina final na dignidade das mulheres sobreviventes de Tróia, testemunhas de um massacre. A rainha destronada Hécuba tenta se manter em pé a todo custo, se desdobrando até o limiar de suas forças. Taltíbio, o arauto do rei, anuncia o destino funesto de cada uma das mulheres. Elas serão escravizadas e levadas de Tróia. Com a notícia, a galeria feminina se alterna entre o lamento e a coragem para sobreviver a mais uma trapaça dos deuses.
Depois do dia 11 de setembro último, o caráter social dessa montagem reside no fato de se travar um diálogo metafórico com o expansionismo imperialista do ocidente numa dimensão poética. A montagem dirigida por Nitis Jacon resgata todas as características que sedimentaram seu nome na cena teatral brasileira: escolha de textos com o estigma de arriscados, redimensionamento do espaço do palco, descoberta de jovens talentos e a interminável capacidade de polemizar.
Importando profissionais da área de cenografia e figurinos, que criaram uma unicidade com a proposta cênica, a montagem enveredou por uma linha que ressalta cores e texturas para aplacar qualquer sinal de felicidade. O cenário é composto basicamente por escombros de madeira que servem de apoio ao coro e à sonoplastia ao vivo. Hécuba fica confinada quase o tempo todo numa ilhota de areia. Além de aproveitar cada centímetro do palco convencional, a diretora desdobra o espaço cênico inserindo corredores externos do Núcleo I, depósitos e platéia na encenação de forma convincente.
Como não se tem referências concretas do que seria o coro grego existem apenas conjecturas o calcanhar de Aquiles numa montagem trágica é inventar o coro, delineando forma e o tom sem que se resvale no jogral. No caso dos formandos, o coro caiu nessa armadilha jogralesca em muitos momentos, justamente porque não formava um conjunto humano sensibilizador. Imprimir a face do horror individual que se agregue ao coletivo pede um envolvimento entre as integrantes do coro.
Uma tarefa quixotesca apresentada foi a de inserir os 20 formandos numa montagem e dar oportunidade a todos de mostrar o resultado do aprendizado de quatro anos, num curso universitário com ensino ainda sem norte e a pesquisa e a extensão longe da realidade prática. A protagonista Ana Cristina Pilchowski encarcerou Hécuba, a heroína lamuriosa, apenas no olhar. Sua atuação ficou comprometida em função da articulação e projeção vocal problemáticas. Isso prejudicou a compreensão da história. Duas atrizes se destacam no elenco: Camila Paes de Oliveira (Cassandra, filha de Hécuba) e Vanessa Curty (Andrômaca, nora da rainha). A primeira, numa interpretação arrebatadora não lutou com o verbo. Tomou para si as palavras seculares. Isso refletiu num admirável frasear, inflexões inesperadas e domínio das pausas. Vanessa Curty também foi responsável por um dos momentos mais comoventes da peça, quando levam seu filho Astiânax para o sacrifício. Dos atores, se destacam Ed Sombrio (Taltíbio, o arauto) e Alexandre Mendes (Menelau, o esposo traído de Helena), em passagens relâmpago, foram capazes de variações emocionais e mobilidade corporal trabalhadas meticulosamente.
O que se decanta com a montagem de ''As Troianas'' é que no conjunto os atores foram iniciados num repertório de experiências, que pularam algumas etapas no aprendizado do ofício. A estréia deu oportunidade para que cada qual se defrontasse com as próprias limitações e potencialidades. ''As Troianas'' tem ainda uma pós-apresentação da diretora Nitis Jacon. Completamente desnecessária a explicação sobre os objetivos da peça. Uma obra de arte se explica por si só. Esse procedimento aponta dois caminhos: ou o público é considerado incapaz de compreender a apresentação ou os alunos ficaram desabonados de crédito para serem atores autônomos. A explicação neutraliza a leitura de cada espectador.

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