OPORTUNIDADE DE OURO - As múltiplas faces da Copa
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Anelise Faucz<br>Equipe da Folha 
Curitiba Mesmo no país do futebol, Copa do Mundo não é só sinônimo de jogo, torcida e placar. Em Curitiba, professores do ensino fundamental da rede pública e particular estão aproveitando a movimentação em torno do campeonato para transmitir valores humanos e culturais. Nesta última semana, pelo menos 1.200 crianças de oito a 14 anos viveram não só a euforia dos jogos mas também aprenderam o lado humano de tamanha expectativa.
Uma escola da rede municipal percebeu que a ocasião era oportuna para discutir o preconceito racial. Os alunos do Colégio Dario Veloso surpreenderam-se ao saber que seus ancestrais foram negros trazidos para o Brasil durante o período colonial. A ligação entre o Brasil e a África foi o tema principal dos trabalhos pedagógicos.
A equipe de professores conseguiu mostrar os danos do preconceito a ponto de verificar mudança no comportamento das crianças. As mensagens contidas na lenda do menino Kireku, contada durante a transmissão de um filme em sala de aula, foram avaliadas durante o semestre com os estudantes. O personagem central da lenda, Kireku, é um menino que trava uma batalha para salvar outra personagem da história, famosa por suas feitiçarias.
No decorrer da narrativa, o espectador se sensibiliza ao saber que Kireku descobriu a verdade sobre a vida da tal feiticeira. O vilão do preconceito, simbolizado por um veneno invisível, esteve grudado nos ombros de todos que viviam no vilarejo, feito uma bolha pesada. Kireku alertou a comunidade sobre o mal em suas costas enquanto livrava a feiticeira dos olhares maldosos que a perseguiram por longos anos. As pessoas que decidiram retirar a bolha das costas conheceram a verdadeira identidade da antiga feiticeira.
Não gosto muito de futebol mas eu gostei da lenda. Não tenho mais preconceito. Os africanos são alegres, diz a aluna Luana Venâncio, 10, da 4ª série.
Foi a riqueza estética presente nas figuras que representam o país anfitrião da Copa, em especial a fauna africana, entretanto, que mais chamou a atenção das crianças. O colorido das roupas, os traços geométricos na expressão da arte e os mistérios ilustrados pelos deuses da religião refletiram a alegria percebida por Leandro Agostinho de Sá, 9, aluno da 4ªsérie da Colégio Municipal Colônia Augusta de Curitiba.
O aluno foi um dos 250 expositores da Feira cultural A África está em Nós, idealizada pelas professoras Valdelice Fernandes e Rosane Culpi, que desde o ano passado trabalham a temática com os alunos do colégio. O objetivo das pedagogas é voltar a atenção das crianças para o aspecto cultural da festa entre os países participantes dos jogos.
Um dos temas abordados pelos painéis na exposição foi a extinção de boa parte das espécies de animais de origem africana. A beleza dos bichos e o cenário exótico da selva encantaram as crianças.
A temática da Copa oferece um leque amplo de opções para os pedagogos. Até as cornetas, instrumentos adotados pelas torcidas nas arquibancadas, não ficaram de fora. Os alunos da Colônia Augusta anunciaram que irão fazer um mutirão nos finais de semana para desenvolver cornetas feitas de material reciclado. Podem não surtir o mesmo efeito mas a tentativa se adapta à proposta dos professores.
A pedagoga Luciana Stelmak, do Colégio Dario Veloso, não deixou de abordar com os alunos as mazelas que assolam grande parte da população africana. A fome e o contágio desenfreado da Aids entre as pessoas também fazem parte do retrato atual de todo o continente.
No Colégio Positivo, o esporte foi a principal atividade escolhida pela equipe pedagógica das duas sedes da instituição na capital. A partir da 5ª série, 700 alunos da instituição participaram de uma minicopa de futebol. As turmas foram divididas para representar os países que irão disputar o campeonato mundial. Em sala de aula, professores de diversas disciplinas complementam os jogos, aplicando pesquisas sobre as nações, observando os aspectos culturais e econômicos de cada país. Ao término das disputas, os alunos elaboram uma redação sobre o jogo de que acabaram de participar, simulando a prática de uma cobertura jornalística.
A Suíça foi o país representado pela aluna Giovanna Sampaio, 13 anos, da 7ªsérie do Positivo Júnior. Ela descobriu, entre outras coisas, que a Suíça tem a terceira maior renda per capita do mundo e que eles usam casca de árvore como fôrma para enriquecer a fabricação dos queijos suíços, os mais requisitados do mundo.
Para Zair Cândido Netto, supervisor de esportes e cultura do Positivo, a Copa é uma oportunidade de ouro: Eles mostram muita euforia com a Copa do Mundo, desde o começo do ano. É nessa hora de emoção que trabalhamos valores como tolerância, respeito e socialização.


