OPINIÕES DIVIDIDAS
Durante o debate ontem pela manhã, dia seguinte à exibição de Estorvo, o diretor Ruy Guerra defendeu a permanência de filmes difíceis como o dele, afirmando que o entretenimento cinematográfico pode existir, mas um espaço para trabalhos experimentais e/ou puramente reflexivos precisa ser preservado. Perguntei então se ele acredita em fórmula híbrida, em que o espectador se divirta e ao mesmo tempo reflita sobre temas contemporâneos complexos, aderindo ao filme. Não, para ele não é possível a conciliação. Ou se faz espetáculo ou somente se produz reflexão autoral.
Então, o que fazer diante de Estorvo, já na sua origem um romance inútil que se tornou moda por causa da grife Chico Buarque? Como providenciar a circulação ampla diante de tanta recusa, seja da platéia do Festival de Cannes ou a de Gramado, que na mesma medida abandonou a sala de exibição em levas maciças?
Segundo o produtor Bruno Stropiana, Estorvo é um filme que vai ter vida longa, colhendo frutos que vão chegar aos poucos. Encaminhei nova pergunta. Se diante da reação amplamente negativa da grande imprensa internacional em Cannes, o filme não teria seríssimas dificuldades de trânsito comercial no resto do mundo. O produtor concorda, mas ressalva que Estorvo vem recebendo muitos convites de festivais internacionais.
Difícil. O que vai fatalmente ocorrer é uma reprise de velhos fatos, quando no Brasil um grupo fazia filmes para um grupo, aliás para o mesmo que fazia os filmes. Pelo menos naquela época se ganhava muitos prêmios, respeito e ampla circulação internacional. Culpar a crítica de Cannes, rotulando de comprometida com fórmulas pré-estabelecidas de uma cinema comercial não só é simplista e injusto como tende ao fascistóide.
Pena que o jovem estreante mexicano Alejandro Springall não tenha vindo a Gramado. Pois o Santitos que ele assina é uma supreeendente, deliciosa, apaixonada, mágica viagem, repleta de humor. Esperanza, bela viúva em torno dos 35 anos, acaba de perder a filha por causa de um vírus desconhecido. São Judas Tadeu, seu santo de devoção, aparece para ela na janelinha do forno do fogão e indica um estranho caminho a percorrer até chegar a Los Angeles, onde poderá encontrar a filha. Durante a viagem, Esperanza se mete em situações inesperadas que vão desde a tristeza mais profunda até a alegria mais explosiva.
O que Springall obtém com mão de veterano é um delicado equilíbrio entre elementos. Crença, melodrama, transcendência, realismo fantástico, romantismo, fervor religoso, fervor sexual, enfim um retrato da alma mexicana. A debilidade de Santitos aparece na construção dos personagens que rodeiam Esperanza, nunca desenvolvidos além de superficiais excentricidades. O que de modo algum invalida este trabalho que oferece notáveis fotografia e direção artística, de mãos dadas para a obtenção de um universo sempre over mas nunca kitsch.





