Não que haja grande coisa na fila, à espera de um lugar no circuitão congestionado por Harry Potter. Mas nessas ocasiões, o distribuidor vê uma boa oportunidade de desova de seus produtos menos dotados e trata de buscar espaços, por menores que sejam, a fim de atualizar o cronograma de lançamentos e prestar contas à matriz USA, sempre atrás de resultados neste caso não a qualquer custo, mas a qualquer tempo. Por outro lado, como a avalanche ''Harry Potter'' de certa forma deixa imobilizado um segmento de público mais adulto, o exibidor busca oferecer alternativas mais enquadradas na faixa etária. Desse infeliz encontro de vontades e ganâncias é que surgem no horizonte filmes como ''O Capitão Corelli'' (veja a programação de cinema na página 6).
Era um vez o diretor inglês John Madden. Ele tirou um dia de folga e assistiu a três filmes num única sessão: ''O Paciente Inglês'', ''Zorba, o Grego'' e ''Mediterrâneo''. Saiu do cinema entusiasmado, também com lembrança de algumas imagens de ''Os Canhões de Navarone'', e foi fazer ''O Capitão Corelli'', um pastiche reducionista dos três títulos, um filme que é a exaltação do estereótipo, da simplificação mais empobrecedora e da superficialidade ao abordar diferentes nacionalidades e a psicologia de seus personagens. Tudo se torna absurdamente mais grave quando se sabe que Madden realizou ''Sua Majestade, a Senhora Brown'' e ''Shakespeare Apaixonado''. Ou não teria sido ele?
O Corelli do título é um capitão do exército italiano que, em 1940, ao lado de poderosas tropas alemãs, invade e passa a controlar a paradisíaca ilha grega de Cefalônia. Mas Corelli (Nicolas Cage) não está nem aí para a guerra: somente quer tocar seu bandolim, cantar ópera com seus soldados, curtir o sol com prostitutas em topless. E, claro, seduzir a bela Pelágia (Penélope Cruz) . ''Somos italianos, famosos por cantar, comer e fazer o amor''. Na boca do invariavelmente exultante Antonio Corelli algumas frases sempre tão banais, óbvias e artificiais, tornando ainda mais incompreensível como quatro dos principais estúdios americanos e europeus (Miramax, Universal, Working Title e Studio Canal) puderam dissipar quase US$ 60 milhões.
Nesta indigesta aventura bélico-romântica há de tudo. Começa como compêndio de amenidades pitorescas sobre os cantos, as danças, a religiosidade e as belezas naturais e arquitetônicas da ilha o condimento ''turístico'' da história. Pouco depois forma-se um triângulo amoroso de invejável inépcia, já que Corelli, Pelágia e Mantras (Christian Bale), o jovem líder da resistência de patriotas gregos e o prometido da protagonista, não reunem ingredientes para nenhuma química sensorial, quem dirá cerebral. E como pano de fundo trágico, soldados alemães estão por todas as partes cometendo todo os tipos de atrocidades.
São mais de duas horas que escorrem lentas, intermináveis. Para preenchê-las com toques de verismo existencial, o roteirista Shawn Slovo (baseado em novela de Louis de Bernières) abre espaço para máximas sobre a vida, com certeza saídas de algum livro de aforismos e recitadas em inglês com contorsões em italiano ou grego, não se sabe ao certo. A certeza é que é tudo muito risível, anacrônico, abundante em afetação e em clichês tanto no no fundo como na forma. Um desperdício, o notável diretor de fotografia John Toll (''Coração Valente'', ''Quase Famosos'', ''Além da Linha Vermelha''), confinado ao horizonte de praias douradas emolduradas por águas turquesas e a explosões bélicas, tudo na configuração ''bela'' e estandartizada.
Mas o resultado mais deprimente está nas interpretações. Cage deve estar comemorando sua enésima atuação over, um manual ambulante de tiques e gestos e trejeitos que não caracterizam, não reforçam, não sublinham, não acrescentam absolutamente nada ao personagem: são apenas inúteis, somente desgastam e irritam. Penélope ainda está à espera de Ulisses, e continua a carregar sua cruz em Hollywood, com experiências frustrantes como ''Profissão de Risco'', ''Sabor da Paixão'' e ''Espírito Selvagem'' resta esperar por ''Vanilla Sky'', em dupla com o affair Tom Cruise e dirigida pelo ''quase famoso'' Cameron Crowe. Christian Bale beira o ridículo numa caricata figura cheguevariana, enquanto bons veteranos como Irene Papas e John Hurt são forçados a carregar papéis impossíveis, capazes de até liquidar intérpretes com a tarimba dos dois.

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