Ópera é uma arte desconhecida no Brasil, desde que o País perdeu a influência européia e americanizou-se. Isso aconteceu após a Segunda Guerra Mundial, e para trás ficou um tempo que tinha até o ‘‘bonde da ópera’’, trazendo passageiros que vinham dos bairros mais distantes para assistir às temporadas líricas.
Esses idos são lembrados pela diretora Carla Camurati quando fala sobre seu mais novo filme, ‘‘La Serva Padrona’’, baseado na ópera de Pergolesi, composta em 1733. Atuam na montagem a soprano Sylvia Klein, o barítono José Carlos Leal e o ator Thales Pan Chacon, em seu último papel. O filme está em cartaz na Cinemateca de Curitiba, até quinta-feira, nos horários das 18 horas, 19h30 e 21 horas.
Em entrevista à Folha2 ela comentou que o que fez ‘‘foi dar um passinho’’ de encontro à tradição. A crença de que ópera é coisa chata é tão-somente o preconceito gerado pelo desconhecimento. Convidada para dirigir a ópera e o filme, compara a situação ao jogo da vida. ‘‘A bola veio de presente para mim e chutei.’’
O projeto tem o perfil da cineasta, como ela mesma explica. ‘‘Procuro sempre aquilo que tenha uma vida útil interessante. Como o cinema é uma arte cara, quanto menos de descartável a gente colocar, é mais legal.’’ Uma obra como essa no Brasil adquire uma importância ainda maior, pelo que ela representa em educação e cultura.
A peça de Pergolesi conta as peripécias de Serpina, uma criada muito esperta que se apaixona pelo patrão, Umberto. Este resiste aos seus caprichos. Sem ter outra alternativa, a moça coloca em ação um plano que julga infalível, envolvendo na trama o seu amigo Vespone, surdo-mudo que trabalha na casa.
Levar à tela uma obra de 250 anos, que continua envolvendo platéias ao redor do mundo com seu enredo simples e música delicada, foi um empreendimento que resultou num ‘‘filme atemporal’’, segundo Carla. ‘‘Eu me sinto gratificada por essa atemporalidade’’, afirmou. Também conta pontos o clima de harmonia entre elenco e equipe técnica. Todos vestiram a camisa e esse alto-astral refletiu-se no todo do projeto.
Assim que o filme ganhar vida própria e a diretora não precisar mais cuidar de sua divulgação, inicia-se para ela uma nova fase. A de começar a pensar na produção de ‘‘Copacabana’’, seu próximo trabalho.
Escrito por Carla Camurati e Melanie de Mantas, ‘‘Copacabana’’ é ambientado no início do século e narra a história do bairro carioca. ‘‘Uma comédia filosófica’’, explica a artista. A velhice, a tradição, a santa que deu origem ao nome, as pessoas - como uma crônica, todos esses elementos passam pelo filme.
Dar vida a personagens que já se foram, em tempos passados - ‘‘Carlota Joaquina’’ e ‘‘La Serva Padrona’’ são dois exemplos - seria uma tendência da cineasta? Carla diz que sim. ‘‘Gosto de trabalhar com o tempo. Adoro!’’
• La Serva Padrona - filme de Carla Camurati. Cinemateca de Curitiba. Sessões às 18, 19h30 e 21 horas. Até quinta-feira. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00.DivulgaçãoA soprano Sylvia Klein, do elenco de ‘‘La Serva Padrona’’Zeca Corrêa Leite

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