Muito mistério, ''mudanças ousadas'', ventos de renovação. Este é o resumo antecipado da ópera dourada que será encenada no palco do Teatro Kodak de Los Angeles hoje a partir das 10 da noite (horário brasileiro), em pleno domingo de Carnaval - na tevê (a transmissão a cabo é da TNT) o show bate de frente com o desfile no Sambódromo. Por razões óbvias, e samba enredo por samba enredo, fico com a festinha da Academia.
Que aliás está se desdobrando para recuperar os índices de audiência que andaram em queda livre nos últimos anos. Culpa da própria organização do evento, medíocre, e das nominações da Academia, pouco convincentes. E cá entre nós: culpa desta dissipação de talento, desta indigência de idéias que assola a comunidade hollywoodiana com o furor de um Katrina.
A gala desta noite, diz o presidente da entidade, Sid Garris, terá mudanças ''atrevidas e arriscadas'', e o espetáculo se antecipa ''mais teatral e dinâmico''. O aspecto do auditório onde cabem 3.400 pessoas também será renovado, ''e os prêmios de interpretação serão entregues de uma forma como nunca ocorreu antes'', disse Garris. Menos mal, qualquer que seja o quesito originalidade, teremos motivos a mais para varar a madrugada sem o esforço habitual, e melhor ainda porque amanhã, day after, é uma preguiçosa segunda de Carnaval. Pelo menos no Brasil o ibope do show da cinefilia tende a aumentar.
Entre as novidades, Hugh ''Wolverine'' Jackman, eleito recentemente pela revista People ''o homem mais sexy do mundo'', será o apresentador-âncora, substituindo na função tradicionais comediantes, alguns lendários como Bob Hope, outros mais recentes e menos sucedidos, como David Letterman, Ellen De Generis, Chris Rock, Whoopi Goldberg, Jon Stewart. A organização decidiu apostar na estampa de Jackman. Mesmo que só dispare abobrinhas ou se atenha ao texto que lhe derem para decorar, o eleitorado feminino e assemelhados não vão desgrudar o olho da telinha. O ator de ''Austrália'' saiu-se com uma enigmática declaração esta semana: ''O simples fato de que tenham me contratado é um sinal de que querem tomar um novo rumo''.
Outro detalhe inédito que a organização sinaliza é provocar a espontaneidade (?) da platéia. Garris deu como exemplo a performance do ator-diretor Roberto Benigni quando ''A Vida é Bela'' ganhou o Oscar em 1999, e ele em agradecimento se agarrou às pernas de um atônito Martin Scorsese. O problema é confundirem cenas constrangedoras com bom humor genuíno e presença de espírito capaz de gerar situações agradáveis.
Bem, esta é a forma anunciada. E o recheio, os prêmios, as estatuetas, quem leva, afinal ?
O favorito destacado é ''Quem Quer Ser um Milionário'', que deixou de ser surpresa para nas últimas semanas se transformar em máquina de vitórias e recompensas. Desbancou ''Benjamin Button'', não tomou conhecimento de ''Milk'' ou de ''O Leitor'' ou de ''Frost Nixon'' - a propósito, estes dois últimos são os únicos que não estão em exibição em Londrina. É bom, no entanto, não esquecer do ''efeito Crash'', filme que na última hora atropelou a barbada ''Brockback Mountain''.
Melhor direção deve ficar entre David Fincher (Button) ou Danny Boyle (Milionário). Já entre atores e atrizes a parada é mais dura. O redimido Mickey Rourke está ótimo em ''O Lutador'', e a Academia gosta destas histórias de redenção que imitam a vida. Mas há um grande Sean Penn como o ativista gay em ''Milk''. Não acredito muito em Brad Pitt, acho que não chegou a hora dele, mas de urna da Academia nunca se sabe o que vem. Entre os coadjuvantes, a certeza póstuma em Heath ''Coringa'' Ledger é tanta que vão levar ao teatro a órfãzinha Matilda Rose Ledger, de três anos, mas quem receberá o premio será a mãe, Michelle Williams.
Entre as atrizes, a torcida geral é para Kate Winslet, que aos 33 anos já esteve para agarrar a estatueta em cinco oportunidades, mas chega a 2009 assombrada pelo peso da ''Dúvida'' de Meryl Streep. Anne Hathaway, ótima, deve esperar na fila ao lado de Pitt. Entre as coadjuvantes, nenhuma surpresa se um Oscar cair no belo colo de Penélope Cruz. Ah, em tempo: a Academia reforçou aos ganhadores, como faz em todos os anos, aquele pedido inútil: ''Sejam breves, pessoais e sinceros nos agradecimentos, que nunca devem passar de 45 segundos''. Quem se habilita com o cronômetro ?

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