O dramaturgo sazonal Chico Buarque de Holanda escreveu em 1978 o musical ''Ópera do Malandro''. Nesse trabalho, o poeta e músico exercitou com maestria duas de suas características marcantes: desvendar a alma feminina e a luta pelo poder. ''Ópera do Malandro'' é responsável pelo maior número de sucessos imortalizados que ganharam vida própria fora dos palcos: ''Folhetim''; ''Geni e o Zepelin'', ''Terezinha'', ''Sentimental'', ''O Meu Amor''. Só para citar alguns.
A diretora e regente Regina Luccato, num trabalho de resgate da obra cênico/musical de Chico, volta nessa edição do Festival de Música e dirige a ''Ópera...'' No ano passado, a escolha recaiu sobre ''Calabar''. Desta vez, a história se passa no Rio de Janeiro na década de 40 e possui dois núcleos. O primeiro é na casa do poderoso Duran e o segundo núcleo se localiza no esconderijo de Max, o cafetão elegante e charmoso que explora Lúcia, sua amante. O espetáculo tem início com o produtor que funciona como um condutor da ''peça'' de autoria de João Alegre. Ao lado da malandragem, Chico Buarque chamou de funcionárias as prostitutas residentes da Morada da Mãe Solteira habitada por 1432 funcionárias.
Duran tem uma filha, Terezinha, que se casa com Max Overseas, nome fictício que Sebastião Pinto encontrou para enganar Terezinha. Numa peça cheia de malandros, até o detetive Chaves carrega esse arquétipo. Chaves é amigo de Duran e padrinho de casamento de Max. Ele fica com Terezinha, apesar dos opositores. A situação social fala mais alto do que o sentimento.
Musicalmente, Regina Luccato eleva ''Ópera do Malandro'' como a mais complexa dos musicais de Chico Buarque. As letras quilométricas e as melodias refinadas fazem desse musical um desafio para o ator/cantor. ''Chico Buarque expressa o sentimento feminino claramente. Ele mostra a força das mulheres e elas os contrastes sociais'', avalia a regente.
A peça foi baseada na ''Ópera dos Mendigos'' (1728), de John Gay e na ''Ópera dos Três Vinténs'' (1928), de Bertold Brecht e Kurt Weill. O autor contou com inúmeras colaborações para o resultado final. Luiz Antônio Martinez Corrêa e Marieta Severo foram dois importantes colaboradores. ''Minha peça era uma mistura do original de John Gay com o Bertold Brecht, e diferente deles também, temperada com elementos bem brasileiros'', declarou Chico Buarque, sobre sua peça na época da estréia.
Nessa adaptação foram feitos testes com os 25 cantores que integram o elenco do musical. São 16 músicas no espetáculo do FML intercaladas com trechos mais significativos do texto. O importante, segundo Regina Luccato, é que se sobressaia o lado cantor dos integrantes. A diretora recorreu a um tapete vermelho dividido ao meio para ambientar os dois núcleos opositores.
Sobre a exposição do sentimento feminino pode-se destacar os versos de ''O Meu Amor'': ''O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/E que me deixa louca/Quando me beija a boca a minha pele toda fica arrepiada/E me beija com calma e fundo até minha alma se sentir beijada...''. Já o ''Hino a Duran'' apresenta os caminhos ardilosos na luta pelo poder, revelando a época repressiva em que a peça foi escrita: (...)Se vives nas sombras, frequentas porões./ Se tramas assaltos ou revoluções/A lei te procura amanhã de manhã/Com seu faro de doberman/...''
Vale lembrar que o cineasta Ruy Guerra fez sua versão musical para o cinema em 1985, tendo como protagonistas Edson Celulari, Cláudia Ohana, Elba Ramalho e Ney Latorraca.
''Ópera do Malandro'', de Chico Buarque de Holanda. Adaptação, direção e regência de Regina Luccato, acompanhada ao piano por Marcelo Caldi. Com os alunos do Festival de Música de Londrina. Hoje, ás 21 horas, no Teatro Marista. Ingressos a R$ 4,00 e R$ 2,00 (estudantes).

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