É num grande galpão com seis metros de altura, localizado no quilômetro 22 da rodovia paulista Raposo Tavares, que a trupe da Central do Circo ensaia exaustivamente o espetáculo ‘‘Fantasmas’’, que abrirá o 10º Festival de Teatro de Curitiba, na noite da próxima quinta-feira. Mesclando artes cênicas e circo, 17 artistas irão utilizar não só o palco, mas toda a estrutura de ferro da Ópera de Arame para representar os principais personagens do teatro mundial.
Sob a batuta do diretor Rodrigo Matheus, 38 anos de idade e 23 de teatro, a companhia reúne integrantes de três importantes grupos: Circo Mínimo, Linhas Aéreas e Lá Mínima. Prestes a participar pela terceira vez do festival de Curitiba, Matheus gentilmente interrompeu o ensaio, na última terça-feira feira em São Paulo, para atender com exclusividade à reportagem da Folha 2. Ele falou sobre seus projetos profissionais, sobre vantagens e dificuldades do festival de Curitiba e não poupou críticas à postura de alguns diretores famosos, como Gerald Thomas. Acompanhe alguns trechos da entrevista:
‘‘Fantasmas’’ foi elaborado especialmente para estrear no festival de Curitiba ou foi um acaso a montagem se adptar tão bem ao espaço da Ópera de Arame?
Ele foi pensado especialmente para o festival... Na verdade, eu tenho um outro projeto que caberia exatamente no espaço da Ópera de Arame, mas é muito mais caro e eu não tenho orçamento suficiente para realizá-lo agora. Em fevereiro, recebi o convite para dirigir um espetáculo no festival. Com pouca verba, comecei a pensar no que poderia fazer.
E aí surgiu ‘‘Fantasmas’’?
Sim, eu escrevi um roteiro com a idéia de mostrar os espíritos que habitam os teatros. Para nós que fazemos artes cênicas, teatro é um templo sagrado, um local onde acontecem coisas especiais.
Que personagens serão revividos em ‘‘Fantasmas’’?
Vários... Hamlet, Lady McBeth, Puck... Estes são os que mais claramente ficam caracterizados. Tem também o Soldado e a Camponesa de Woizek, as Três Irmãs de Tchecov, um coro da Tragédia Grega, um Prometeu, Romeu e Julieta, enfim, têm muitos... São espíritos que vivem no teatro e eventualmente se vestem com figurinos e se transformam nestes personagens...
De que forma personagens tão distintos irão interagir no mesmo espetáculo?
Há, você vai ver... (risos). Bom, a estrutura da montagem é circense. O que a gente fez foi uma brincadeira: misturar números circenses com referências aos personagens, cenas, diretores e autores da história mundial do teatro. Tem uma hora, por exemplo, em que quase recriamos uma cena famosa de um espetáculo do Peter Brook. Tem outra cena inspirada em Macunaíma: um grupo de pessoas lendo jornal, sem mostrar os rostos para o público, que é uma famosa imagem que Antunes Filho criou. Neste caso, por exemplo, pegamos a mesma imagem só que colocamos todo mundo pendurado.
Então vocês irão utilizar ao máximo a estrutura da Ópera de Arame?
Na medida do possível, considerando que o processo de criação não aconteceu lá dentro e que chegaremos a Curitiba apenas quatro dias antes do espetáculo, tempo que teremos para adaptar o que ensaiamos aqui em São Paulo. Precisamos trabalhar com uma difícil equação que envolve prazo, verba e o que temos vontade de realizar. Mesmo assim, tenho certeza de que dará para fazer muita coisa bonita...
Existem muitas críticas negativas sobre a estrutura, principalmente acústica, da Ópera de Arame. Você teme que isto possa prejudicar a sua montagem?
Vejo a Ópera como um espaço muito especial e único. Se ela peca na acústica, ganha pelo fato de ser um monumento... É um verdadeiro templo moderno... Para driblar os problemas, utilizaremos poucas falas. Não podemos explorar a complexidade dos textos com esta dificuldade acústica. Provavelmente teremos que utilizar microfones... Os atores também têm bastante experiência e estão instruídos a pronunciar muito bem as palavras, pausadamente.
Você me disse que ‘‘Fantasmas’’ não tem cenário, conta apenas com aparelhos circenses e com o trabalho dos atores. Ele é um espetáculo barato?
Ele é teoricamente caríssimo, mas está sendo feito de uma forma muito barata pela postura de toda a equipe da Central do Circo. Ele só se tornou possível porque estes artistas toparam fazer uma empreitada: trabalharmos como loucos ganhando muito pouco. Eu não posso dizer o orçamento exato porque não é uma questão de quanto custa, mas sim de quanto vale. O espetáculo vale muito, mas este é o grande problema das artes cênicas: você sempre tem que estar fazendo concessões e o artista raramente é bem pago. É claro que se eu me chamasse Gerald Thomas, a verba para o meu espetáculo no mínimo triplicaria... Há boatos de que alguns espetáculos que já estrearam em outras edições do festival tiveram verbas faraônicas...
Por falar em Gerald Thomas, ele e outros diretores famosos optaram por não participar mais do Festival de Teatro de Curitiba. Qual é a sua opinião sobre isto?
A negociação entre cada produção, cada diretor e a organização do festival é muito específica: um grupo novo tem menor poder de barganha e um grupo mais conhecido tem maior poder. Na minha opinião, o festival de Curitiba é o festival mais importante do Brasil, exatamente por ser um festival nacional, que recoloca o teatro brasileiro exatamente no lugar em que ele deve estar: um lugar de destaque, de respeito. Há vários outros festivais no Brasil, mais caros ou com participação de vários grupos internacionais, mas que não ajudam a produção nacional. Prova disto é que vários espetáculos são convidados a partir do Festival de Curitiba para viajar para o exterior. Isso inclusive aconteceu comigo. Esta para mim é a característica mais importante do Festival de Teatro de Curitiba. Agora, se neste ano tal diretor participará ou não é uma contingência, é acaso. Voltando ao Gerald Thomas, sei que em algumas ocasiões ele esteve no festival de Curitiba e não conseguiu estrear o espetáculo pelo qual estava contratado. Isso aconteceu por exemplo com o ‘‘Reis do Iê Iê I꒒, que foi um engodo. Quando chegou na hora da estréia, o espetáculo não estava pronto e eles fizeram uma espécie de improvisação, de ensaio... Eu não sei quanto ele ganhou por isso, mas ouvi falar que foi muito dinheiro. Para mim, isto é no mínimo falta de profissionalismo. Acho que, felizmente, o festival não perde porque este ou aquele diretor não vai participar. O Brasil tem uma produção cultural magnífica.
Você falou num outro projeto, mais caro, que se adaptaria muito bem à Ópera de Arame. Qual é?
Chama-se ‘‘Miranda e a Cidade’’. É um espetáculo muito adequado à Ópera de Arame porque tem um cenário todo feito de canos. Ele está em fase de pré-produção, o roteiro está sendo escrito e estamos tentando captar recursos através da Lei de Incentivo. Talvez esteja pronto para o final deste ano ou início do ano que vem.
Poderá estrear, quem sabe, no próximo festival de Curitiba?
Não sei. Curitiba é realmente o centro das atenções. Há uma chamada inteligência ou casta cultural que vai para o festival, que assiste e recomenda os espetáculos e aquelas são as opiniões importantes. Se a palavra delas é a de que o seu espetáculo é ruim, pode esquecer, porque a carreira deste espetáculo já acabou. Mas, se a opinião for boa, você está feito. Você vai viajar e terá longa carreira... Portanto, se ‘‘Fantasmas’’ emplacar e as pessoas gostarem do produto, a Central do Circo ficará em evidência e eu tenho muitas chances de montar um outro espetáculo no ano que vem na Ópera de Arame. Agora, se for ruim, esqueça. Daí vai demorar muito para eu voltar para Curitiba.

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