Onde tudo começou
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de março de 1997
Scott McCormack Reuters, de Londres 
Arquivo FolhaYoko Ono: exposição no Royal Festival HallYoko Ono vem sendo vista há anos como a mulher que destruiu os Beatles ao roubar o coração de John Lennon e o arrastando ao caos de liberdade espiritual do movimento pela paz dos anos 60.
Mas há muito foi esquecido que Ono era uma artista - ou uma revolucionária das artes - que estava seguindo a própria carreira, antes de conhecer Lennon. Na verdade, eles se conheceram em uma exposição dela em Londres, em 1966.
Ono, uma pequena japonesa agora nos seus 60 anos, foi pioneira no chamado movimento Fluxus, um grupo maluco de artistas que moravam em Nova York preocupados em virar a arte tradicional de ponta-cabeça e rejeitando o que viam como comercialismo cada vez maior.
O movimento atraiu bastante atenção - e bastante escárnio e críticas - com seus happenings (acontecimentos) e vendas de porcaria nas ruas de Nova York. Agora, mais de 30 anos depois da exposição onde Yoko conheceu Lennon, seu trabalho voltou a ser mostrado no Royal Festival Hall.
Para mim, é como a volta para casa que jamais poderia acontecer, escreveu Yoko, na introdução a uma de suas peças a serem expostas. Uma volta pelo hall mostra logo que o movimento com certeza rejeita as noções convencionais de arte. Algumas das exposições de Ono até mesmo criam a questão se a pessoa por trás dos trabalhos é um artista ou um anti-artista.
Filmes insólitos Particularmente curiosos são os numerosos filmes da artista, incluindo um que mostra uma mosca negra passeando vagarosamente sobre um torso feminino nu, parando nos seios e na genitália.
Absolutamente vil, declarou uma mulher vestida de negro, que se disse muito embaraçada para dar seu nome, mas assistiu ao filme, com um grupo de espectadores atônitos.
Próximo dali, outra fita, chamada Bottom (algo como traseiro), mostra 80 minutos de bundas peladas rebolando, com todos os detalhes, editados de modo a preencher toda a tela.
Bastante provocativo, não é?, reagiu o estudante de arte David Lester. Ono é muito individualista, mas ela delimitou um grande grupo de artistas que desafiou a própria noção do que era arte. Ono queria mostrar, com as nádegas carnudas, às futuras gerações, que os anos 60 não foram apenas de conquistas, mas de riso também.
Um barulho de marteladas quebra a tranquilidade habitual de uma exposição de arte, e sugere que a mostra ainda não está completamente instalada. Mas o ruído não vem de trabalhadores dando algum toque final, mas de visitantes batendo pregos submissamente em três painéis brancos, feitos segundo instruções de Ono.
Ela reproduziu a peça Pintura para se Bater um Prego, que já havia exposto na mostra de 1966, quando Lennon a conheceu.
O encontro Lennon havia entrado no museu para encontrar um amigo comum dos dois. A mostra ainda não havia sido aberta ao público, mas ele deu uma volta pelo lugar, e gostou das obras que viu. Uma das instalações consistia em uma escada aberta, em que a pessoa tinha que subir até conseguir ler a palavra yes, pintada em pequenas letras no teto.
A artista encontrou o beatle mexendo na instalação, e sem saber de quem se tratava, deu-lhe uma bronca. Então, ele perguntou se podia bater um prego. Ono disse-lhe que custaria cinco shellings.
Lennon não tinha dinheiro e disse se poderia pagar com shillings imaginários e bater um prego imaginário. Pensei: conheci um cara legal, que joga o mesmo jogo que eu, falou Yoko.
Depois de bater um prego cuidadosamente no centro do painel do meio, Martha Tocker, de Buenos Aires, sorriu e disse: Isso é muito divertido. O que significa? Não tenho a menor idéia. A afirmação é a mesma de muitos outros visitantes.
Como os outros, ela enfatizou que não é especialista em arte e não pode opinar sobre um trabalho artístico tão moderno. Você deveria perguntar para minha amiga, ela trabalha na comunidade artística, desculpou-se.
A obra encarna o espírito dos anos 60 e é bastante americana, arriscou a amiga, Caroline Jamieson, administradora de um colégio de arte londrino. Mas eu tenho que admitir, preferiria dar umas pinceladas com tinta do que bater num prego.


