Onde nos perdemos?
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sábado, 25 de maio de 2019
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Vivemos um momento em que rótulos se sobrepõem ao conteúdo. A razão deu lugar ao dogmatismo, os livros foram substituídos pelo twitter e frases feitas se impõem à argumentação reflexiva. Para piorar as coisas, ideias preconcebidas impedem o diálogo e fazem aflorar o desejo de aniquilação de todos os que pensam diferente. Precisamos de um novo Iluminismo que nos livre do obscurantismo e da cegueira, e que além da razão, seja capaz de incorporar a sensibilidade e nos faça entender que possuímos muito mais semelhanças do que diferenças.
Nossa era moderna foi construída sob as bases valorativas da igualdade, liberdade e solidariedade. A solidariedade se destaca por despertar nossa humanidade, capta a subjetividade e a materializa, alia afeto a efetividade. Solidariedade pode ser definida como o compromisso pelo qual as pessoas se vinculam umas às outras e cada uma delas a todas. Há uma responsabilidade recíproca, que envolve: empatia, generosidade, senso de justiça e capacidade de renúncias individuais em favor do outro e da coletividade.
A solidariedade, na sua inteireza, deve ser entendida sob duas óticas distintas, mas complementares: a solidariedade voluntarista e a institucional. A primeira está ligada ao universo das relações interpessoais, espontâneas, que fazem aproximarmo-nos e comprometermo-nos uns com os outros, numa ideia de ajuda mútua, que atua no “varejo”, nas relações face a face. Já a solidariedade institucional configura-se no “atacado”, pois avança para a esfera política, aparta-se do voluntarismo e se consolida no plano dos direitos, onde se estabelece um pacto social em favor da paz, do bem comum, da justiça social e da dignidade humana.
Todavia, a solidariedade que parecia ser consensual, capaz de nos alçar a níveis civilizatórios superiores, nos últimos tempos, transformou-se em anátema, palavra perigosa, subversiva. Aceita-se apenas a solidariedade voluntarista, caritativa, espontânea, mas condena-se qualquer tentativa de avanço institucional, que se proponha a revisar as estruturas postas e assegurar direitos, promover justiça social, inclusão, fim de privilégios e a preservação de todas as formas de vida. A solidariedade tende a ser aceita desde que mantenha a estrutura hierárquica e de poder, mas é rejeitada quando propõe uma nova ordem social, mais horizontal e equitativa. Vale lembrar Montesquieu: “existem duas formas de corrupção, uma quando os homens descumprem as leis e uma outra, não menos grave, quando as leis desrespeitam os homens.
A solidariedade, na sua perspectiva integral, não se reduz a atos isolados e voluntaristas, que muitas vezes só reforçam as relações de poder e dominação, mas é ampliada e ganha consistência ao se institucionalizar. Solidariedade é uma postura filosófica centrada na busca do bem viver coletivo com a responsabilidade de não deixar ninguém para trás. É o inverso do egoísmo que se regozija com a hierarquia, pois alimenta a ideia de superioridade congênita, configurada sob a forma de bens materiais, raça, sexo, gênero ou cultura.
O que mais preocupa no momento atual é que a solidariedade passou a ser vista como algo suspeito. Defender a causa dos pobres, dos explorados, dos excluídos, dos escravizados, das minorias violentadas, enfim, dos esquecidos e sem voz, tornou-se ameaça a ser combatida a qualquer custo. Alguém que abre mão do seu conforto e privilégio original para defender os injustiçados é visto como traidor da sua classe, e por isso fonte de perseguição. Ao se colocar a solidariedade sob suspeita, evidencia-se a grave crise ética que assola o País. Onde será que nos perdemos?
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS, professor de Socioeconomia (UEL), autor do livro “Pautas Para Outra Sociabilidade”


