‘‘Prêt-à-Porter 3’’, o exercício de simplicidade da Nova Teatralidade de Antunes Filho, apresentado no Filo de quarta a sexta-feira, reúne três pequenas encenações. Pela ordem: ‘‘Bom Dia’’, ‘‘Leque de Inverno’’ e ‘‘Posso Cantar?’’ . O que era um exercício cênico se transformou num espetáculo ‘‘pronto para usar’’ (tradução literal de prêt-à-porter).
Ao inserir um prólogo didático, os atores começam a desnudar o ato teatral, sem descaracterizá-lo como jogo. A concepção cênica e dramatúrgica dos atores, contou com a sombra protetora do coordenador Antunes Filho. No espaço franciscano, não há efeitos de luz e sonoplastia. A carência afetiva é o ponto de partida para as três cenas, escancaradamente risíveis, apresentadas sem a lupa do estereótipo.
Nesse laboratório criativo e didático, os resultados se revelam positivos, entre outros motivos, porque os personagens deflagram a imaginação do espectador. Fica impossível não imaginar histórias saborosas anteriores e posteriores à encenação. Em determinados momentos, dá vontade de invadir o palco e participar da conversa, beber um vinho, trocar e-mail, dar um abraço naquelas figuras tão familiares. Em ‘‘Prêt-à-Porter’’, o tom confessional da dramaturgia dá um caráter psicanalítico à encenação e oferece a oportunidade ao espectador de ser tornar um voyeur. Essa Nova Teatralidade não se traduz em mais uma camada da dramaturgia do CPT, e sim, é um novo tempero e, por consequência, um novo aroma cênico. Nesse espetáculo, a questão que salta aos olhos é: ‘‘onde mora o teatro’’?
No segundo quadro, ‘‘Leque de Inverno’’, um casal de amigos se encontra numa festa de aniversário que não aconteceu. Ao fundo, sussurrante e dolorida, Dalva de Oliveira, canta no radiogravador ‘‘o peixe é pro fundo da rede, segredo é pra quatro paredes...’’. Um paradoxo, pois naquele momento segredos não valem nesse jogo teatral. O discurso dos jovens dramaturgos é de sobrevivência. Não há vínculos afetivos duradouros, há que se contentar apenas com lampejos de afetividade.
Na chamada Nova Teatralidade (o Santo Graal de Antunes), os atores vivem situações à beira do abismo, ao defender o naturalismo, esquecer as convenções, driblar os vícios, sufocar os estereótipos e reinventar diariamente a motivação. Nesse processo, a ansiedade dos atores é dominada, dando vez à pausa.
Nesse contexto desafiante, Juliana Galdino, Donizeti Mazonas, Silvia Lourenço, Emerson Danesi e Sabrina Greve correm todos os riscos de cara lavada, exercitando interpretações com precisão cirúrgica, ao mesmo tempo libertos para mudanças. A carnavalização do CPT estabelecida num outro estágio. Afinal, como apreenderam, a transitoriedade é palavra de ordem.
A insatisfação com fórmulas esquemáticas levou Antunes Filho aproximar o público da gênese do teatro. A pompa e circunstância de um espetáculo teatral foi deixado de lado, em favor do ator. O panorama simbólico escolhido pelos dramaturgos elege o canal da sensibilidade para resgatar a auto-estima de personagens instalados num conjugado qualquer, inválidos sentimentalmente. Desta vez, a trupe do CPT e Antunes Filho entraram pela porta dos fundos do teatro, fizeram o serviço sem muito alarde e saíram de mansinho, deixando a sensação de ambiente renovado.

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