ONDE FORAM PARAR OS CDS DE TOM ZÉ?
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de janeiro de 2001
Nelson Sato de Londrina 
A maldição ainda pesa sobre Tom Zé. Nem sua triunfante redescoberta, com farta exposição na mídia, foi capaz de suplantar os sinistros descaminhos da distribuição de discos no Brasil.
Num milagre da indústria, sete álbuns do artista foram lançados na última temporada. Mas quem disse que os títulos chegaram, de fato, às lojas? Em Londrina, se algum fã vasculhar as prateleiras vai encontrar no máximo seu novo trabalho Jogos de Armar Faça Você Mesmo (Trama) e, talvez, o exemplar a ele dedicado da série Enciclopédia da Música Brasileira (Warner).
Mas e seu álbum de estréia, homônimo, reeditado pela Sony? E a caixinha com os quatro discos da série Dois Momentos, da WEA, incluindo o antológico Estudando o Samba (de 1976)? Nem sinal. A continuar assim, o que era raridade em vinil vai permanecer com a aura intacta no formato CD numa sintomática rejeição do mercado ao que lhe é estranho.
Em Jogos de Armar, Tom Zé insiste em seu peculiar sincretismo musical misturando ritmos nordestinos samba e baião em primeiro plano em compassos alterados. Algumas deturpações chegam a receber novos nomes do compositor tais como maracapoeira (nas faixas Jimi Renda-se e Moeda Falsa), chameguinho-choro (Peixe-Viva, em parceria com José Miguel Wisnik), samba-rap (Perisséia, em parceria com Capinam) e chamegá (Chamegá, Medo de Mulher e Passagem de Som).
Nem tudo parece bem resolvido, mas é da dinâmica de suas composições desafiar expectativas viciadas, ainda que às vezes soe intragável. Tom Zé jamais será popular. Sua obra requer sobriedade na apreciação. É como se desmoralizasse qualquer excesso, seja ele de entusiasmo ou de condenação. Seu novo disco traz duas regravações: Asa Branca (clássico de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em versão quase irreconhecível) e Pisa na Fulô (xote de João do Valle/Ernesto Pires/Silveira Júnior).
A curiosidade fica por conta da faixa A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI, uma das quatro músicas do repertório com viéis político-social. Explorando o bizarro, Tom Zé apresenta no disco os instrumentos que inventou nos anos 70, bugigangas improváveis como o herz (uma espécie de sampler pré-sampler eletrônico), o enceroscópio (feito com enceradeiras, aspiradores de pó e liquidificadores), o buzinório (um conjunto de buzinas manejadas num teclado), o serroteria (um dispositivo montado com canos de de madeira, PVC e outros materiais) e as canetas Lazzari (um pequeno instrumento com canetas esferográficas).
Como se fosse pouco, o CD com as canções vem acompanhado de um CD auxiliar (a expressão é do artista) intitulado Cartilha de Parceiros que contém as bases das músicas. A idéia é que o próprio ouvinte manipule e crie à vontade em cima dos módulos compondo, assim, novas canções. Sugestiva provocação, já anunciada em seus primórdios tropicalistas e no período amargo de ostracismo quando lançou os antológicos álbuns Se o Caso é Chorar (1972), Todos os Olhos (1973), Estudando o Samba (1975) e Correio da Estação do Brás (1978).
São os quatro títulos resgatados agora pela coleção Dois Momentos, comandada por Charles Gavin (dos Titãs), e que o público procura, procura e não acha.


