Um olhar. Uma câmera. Um mundo. Que mais seria necessário a um cineasta que busca registrar a realidade em que se ampara? Nada, talvez mais nada. Foi essa a receita que o jovem Mário Peixoto utilizou na obra máxima de nossa cinematografia, ''Limite'' (1930 ou 31).
Se você ainda acredita que ninguém conhece nosso primeiro estilista, nada mais que 7.360 referências persistem na rede mundial de computadores. E não são apenas sítios brasileiros, incluindo páginas americanas (principalmente), francesas e uruguaias. Todas reverenciam a obra mais ousada já filmada em solo brasileiro, o filme que uniu Peixoto e Edgar Brasil, nosso maior fotógrafo.
Mas onde reside essa qualidade atribuída a Peixoto e Brasil em elogios tão suntuosos? ''Creio que 'Limite' expressa de forma visceral o desejo de fazer cinema, ou seja, a perseguição por parte do artista do filme que ele quis fazer''. A sentença acima, proferida por Walter Salles, outro homem das imagens, confirma em Peixoto a vontade única de servir à sétima arte acima de tudo. E é isso que falta ao nosso cinema contemporâneo! Os cineastas fazem de tudo, transferindo a preocupação com a linguagem e a história a momentos ínfimos, apressados, cronometrados. A contemplação e o distancimanto estético, tão próprios a Peixoto, Humberto Mauro, Alberto Cavalcanti e outros de nossos homens de película, já não existem mais. Estamos em tempos de incentivos fiscais, nada mais é discutido.
A página www.hollywood.com/celebs/detail/celeb/190099 traz breve relato da vida do homem de um filme só que foi Peixoto. A notícia biográfica lembra o facto inusitado que foi um garoto de 22 (ou 23) anos realizar ''Limite''. Assim como Hitchcock construía seus filmes a partir de único símbolo visual, o brasileiro partiu apenas de uma imagem, a que ele conhecera tempos antes em uma viagem por Paris - uma mulher e duas mãos algemadas. Nada mais a acrescentar na trama que reúne três seres em um barco oprimidos pela realidade. Eis uma possível sinopse a ''Limite''.
Peixoto até escreveu outros cinco scenarios (como chamavam roteiro à época), incluindo ''Onde a Terra Acaba'' e ''A Alma Segundo Salustre'', mas nuca encerrou outra produção, registra a página www.jangada.org/franceáá. Em 1992, ano em que morreu, já não contava ''um dia a mais''. Dizia sempre, ''um dia a menos'', relata Salles. O criador da obra-prima ''Terra Estrangeira'' (com notória influência de ''Limite'' nos enquadramentos) e ''Abril Despedaçado'' supervisiona, por meio de sua produtora Videofilme, o arquivo Mário Peixoto, localizado no Rio de Janeiro. Lá pode se pesquisar tudo sobre o homem que inventou um elogio de Serguei Eisenstein a si mesmo, intitulado ''Um Filme da América do Sul''. Peixoto realçou em si qualidades que o russo destacava em suas teorias sobre a forma e o sentido dos filmes. Se você estiver disposto a se aprofundar nesse universo li-mítico, ligue para (21) 556-0810 ou (21) 285-3865, no Arquivo Mário Peixoto. Se quiser re(ver) ''Limite'', a Funarte distribuiu o filme recentemente - (21) 279-8002 ou 279-8003.


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