Ondas em pedra em Copacabana
Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, o Calçadão de Copacabana foi tema da tese de doutorado da arquiteta londrinense Teba Yllana
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sábado, 29 de junho de 2019
Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, o Calçadão de Copacabana foi tema da tese de doutorado da arquiteta londrinense Teba Yllana
Marcos Roman - Grupo Folha 
Responsável pelo projeto arquitetônico do palco flutuante do Lago Igapó I, Teba Silva Yllana se inspirou nas obras de Roberto Burle Marx para executar o trabalho realizado em 1995. O encanto despertado ao estudar o legado do paisagista brasileiro reconhecido mundialmente motivou a arquiteta gaúcha - que se autodefine como londrinense de coração - a realizar duas décadas depois uma ampla pesquisa sobre uma das mais famosas criações dele. Atuando como docente do departamento de Arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no mês passado ela defendeu com sucesso na Universidade Federal do Rio de Janeiro uma tese de doutorado sobre o Calçadão de Copacabana, remodelado pelo modernista em 1970.
“Abordei esta obra pública, localizada na avenida Atlântica, Zona Sul, do Rio de Janeiro, sob três aspectos: a Arte, a Iconicidade e o Patrimônio. De maneira a resgatar todos os significados e elementos que se perderam e combiná-los à sua materialidade atual para levantarmos discussões acerca da gestão e conservação deste bem”, resume Teba sobre sua tese de doutorado. A arquiteta comenta os motivos pelos quais sua tese recebeu o título de Rochas, Desenhos e Desígnios, O Calçadão de Copacabana. “Esse título engloba os três tempos da calçada. As rochas fazem referência ao passado de Copacabana, uma planície cercada por uma cadeia de montanhas em forma de auditório. Os desenhos refletem o presente, ou seja, o Calçadão de Copacabana, projetado por Roberto Burle Marx, em 1970 e os desígnios, o desejo que esta obra continue a embelezar a praia no futuro”, detalha.

Com 4,5 km de extensão, o Calçadão de Copacabana é um bem tombado nas instâncias estadual e municipal, e recebeu da Unesco o título de Patrimônio da Humanidade, passando a compor a Lista do Patrimônio Mundial. “Em 1º de julho de 2012, o Rio de Janeiro tornou-se a primeira área urbana no mundo a ter reconhecido o valor de sua paisagem, que representa uma simbiose perfeita entre a natureza esplendorosa e o trabalho artístico humano. Esses tombamentos e o título são justificados pela importância do Calçadão de Copacabana, não apenas para os cariocas, mas como símbolo da cultura nacional, sendo, talvez, a única calçada do mundo reconhecida apenas pelo seu desenho”, ressalta a arquiteta.
O Calçadão de Copacabana foi construído com pedras portuguesas no início do do século XX. Porém, naquela época as ondas do mosaico tinham como tema o “Mar Largo”, sendo perpendicular ao mar. A partir de 1924, o desenho das ondas passa a ser paralelo ao mar, sendo batizado de “Onda Copacabanense”. “Os historiadores do bairro atestavam que, em 1929, em função de uma ressaca violenta, a calçada foi inteiramente reconstruída e utilizaram a “Onda Copacabanense”, porém em minha pesquisa resgatei documentos inéditos que mostram que a calçada já vinha sendo reparada, desde 1924, com a “Onda Copacabanense” e que, até o alargamento da praia, em 1970, este motivo nunca preencheu toda a extensão da avenida, tendo sido utilizado apenas em reparos”, enfatiza Teba.
Ela esclarece que a técnica da calcetaria foi difundida por Portugal, na Exposição de Paris, em 1900, chegando ao Brasil um ano antes, quando o Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura, venceu o concurso de projetos para a construção do Teatro Amazonas, em Manaus. “Porém, esta é uma técnica milenar utilizada desde as primeiras civilizações, como constatamos nas ruínas persas ou em Pompeia, de maneira que podemos considerá-la uma das técnicas de revestimentos mais antigas do mundo e a que demonstra indiscutível superioridade sobre todas as demais, não apenas por suas características técnicas mas pelo extremo potencial artístico”, conclui.

O que restou do Calçadão de Londrina
Há dez anos, o desenho geométrico do Calçadão de Londrina que evocava traços da cultura indígena da tribo Kaingang começou a ser substituído com a troca do piso petit pavé por blocos de concreto. A medida é criticada pela arquiteta Teba Yllana, docente da UEL que acaba de estudar a fundo o Calçadão de Copacabana em sua tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio de Janeiro no mês passado.
“A imensa maioria das alterações urbanas que ocorrem nas cidades brasileiras são decorrentes de decisões políticas e não técnicas, os órgãos públicos há muito perderam a excelência na qualidade dos serviços prestados à população”, argumenta a arquiteta Criadora e coordenadora do Laboratório de Documentação Arquitetônica e da Construção Civil - Luiz César da Silva, no Centro de Tecnologia e Urbanismo da UEL.
Em relação à substituição do empedrado português em Londrina, Teba afirma que a cidade teve prejuízos sob diversos aspectos. “Começando pelo fato dele ser um elemento identitário do paisagismo brasileiro, onde através dos desenhos imprimimos uma linguagem própria às nossas praças, que não mais copiava o padrão europeu. Na época da substituição, a administração pública alegou que a mudança era necessária pela dificuldade de manutenção do piso e pelo custo elevado. Mas uma das responsabilidades da prefeitura é, justamente, qualificar mão de obra. No que toca aos custos, desconheço outro material de revestimento urbano que dure 800, 900 anos ou mais, além de contar a história de seu povo através de desenhos e mosaicos. Claro que qualquer piso sem manutenção ou executado de maneira incorreta é perigoso e provoca acidentes”, ressalta.

No final do ano passado, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul) e a Secretaria Municipal de Cultura, através da Diretoria de Patrimônio Cultural, protocolaram junto à Secretaria de Estado da Cultura as diretrizes do Projeto de Restauração do Calçadão, no trecho específico entre as avenidas Rio de Janeiro e Minas Gerais, único percurso que ainda preserva o piso em petit pavé original que se tornou um dos cartões postais de Londrina com desenhos projetados pelo arquiteto Hely Brêtas Barros, falecido em 2011. “O projeto prevê a revitalização da área preservando elementos originais no entorno do Teatro Ouro Verde, incluindo o piso petit-pavé em preto e branco e as luminárias em formato de araucária, valorizando características históricas e afetivas daquele espaço tão importante para a cultura de Londrina”, destaca Solange Batigliana, diretora de Patrimônio Artístico e Histórico-Cultural da Secretaria Municipal de Cultura.
Segundo ela, o projeto ainda está em fase inicial. “Nesta primeira fase, estamos aguardando os orçamentos de, pelo menos, quatro escritórios de engenharia que são necessários para o trâmite que antecede a abertura do processo de qualquer licitativo. Estes orçamentos devem ser encaminhados a Curitiba no início do segundo semestre para que o processo tenha andamento. Ainda não é possível prever quanto tempo demorará até o início da obra, caso os recursos para sua execução sejam aprovados”, salienta.


